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3 de janeiro de 2015

Na virada do século XVII, os navios da VOC [Companhia Holandesa das Índias Orientais] também estavam no mar da China Meridional, sondando o litoral ao norte de Macau até a província de Fujian, em busca de um lugar onde pudessem estabelecer o comércio com a China. Como já tinha um acordo comercial em Macau com um grupo de “francs”, como eram chamados os europeus naquela época (a palavra vinha do árabe), o governo chinês não estava interessado em fazer concessões a outro grupo. Mas os mercadores chineses privados estavam ansiosos para negociar com todos os francs, e algumas autoridades se dispunham a ser compreensivas se o preço fosse bom.

Dentre essas autoridades chinesas, o mais famoso era Gao Cai, eunuco imperial encarregado de cobrar impostos alfandegários marítimos. Como a receita da alfândega ia diretamente para a conta da família imperial e não passava pelo ministro das finanças, o eunuco Gao torcia as regras da burocracia em benefício de seu superior. Em 1604, ele criou um entreposto comercial particular a sotavento de uma ilha perto do litoral, onde seus agentes podiam comerciar com os holandeses em troca de belos presentes para ele e para o imperador. O governador da província logo soube do esquema e mandou a marinha interromper o contrabando do eunuco.

A ausência de Estados fortes comparáveis à China no sudeste da Ásia fez com que fosse uma região promissora para os holandeses encontrarem uma base. Os espanhóis (instalados em Manila) e os portugueses (em Macau e outras localidades) eram muito poucos para dominar as milhares de ilhas da área, de modo que os holandeses agiram rapidamente e tomaram dos portugueses, em 1605, as chamadas Ilhas das Especiarias [Ilhas Molucas]. Quatro anos depois, a VOC criou sua primeira feitoria comercial permanente em Bantam, na extremidade mais oriental da ilha Java. Depois de capturar Jacarta, a leste, a companhia transferiu sua sede para lá e rebatizou a cidade de Batávia. Agora, a Holanda tinha, do outro lado do globo, uma base para desafiar o monopólio ibérico do comércio asiático.

No livro O Chapéu de Vermeer, de Timothy Brook