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30 de abril de 2017

Nos últimos 150 anos, a guerra na Europa havia se tornado profissão de um cavalheiro, comparável a caçar javalis ou dançar o minueto. As regras eram tudo. Dois exércitos se encontravam, e aos poucos se desdobravam em fileiras longas e perfeitamente alinhadas. Cada general procurava descobrir o ponto fraco do outro. Então ele lançava um ataque em colunas paralelas, equidistantes, em perfeito alinhamento, em cadência perfeito. Depois de algumas horas de luta, no máximo, cada um recuava para seu campo, Derramava-se pouco sangue, as batalhas geralmente eram empatadas, e assim a onda de guerra oscilava para a frente e para trás, indecidida.

Então veio a Revolução. A França pela primeira vez se conscientizou de sua condição de nação e, como na Inglaterra Elisabetana e na Espanha de Felipe II, uma tremenda energia foi liberada, um ímpeto de vencer a qualquer custo. Sub-oficiais chegavam a generais, e suas tropas cruas, treinadas às pressas, não conseguiam executar aqueles elaborados movimentos que os exércitos reais adoravam. Então eles atacavam mais rapidamente, mais soltos e não mais de acordo com o manual: em uma única coluna, ou, como o general Carteaux, em “coluna de três”. Bem-sucedidos em outros lugares, esses métodos ainda não haviam produzidos resultados na íngreme região da fronteira italiana. Como Napoleão colocou, “Estivemos jogando por [três] anos nos Alpes e Apeninos uma eterna partida de barra-manteiga”. Para terminar o jogo um general precisaria de qualidades excepcionais.

Napoleão, nesse contexto, tinha quatro dessas qualidades. Primeiro, ele possuía um tipo particular de físico, diferenciado por um torso largo e grandes pulmões. Os grandes pulmões enchiam o peito inalando profundamente o ar para oxigenar seu sangue, e esse generoso fornecimento de oxigênio, por sua vez, dava-lhe um metabolismo extraordinariamente rápido. “Case-nos depressa:” esse foi um exemplo dentre centenas de uma atividade pulsante que tornava Napoleão desejoso e capaz de fazer coisas com maior velocidade.

Segundo, Napoleão conseguia, com muito pouco sono, manter um ritmo fora do comum por alguns períodos. Ele compensava as noites na sela, tirando meia hora de sono quando a ocasião permitia. Como a primeira hora de inconsciência descansa o corpo tanto quando três horas no meio de uma noite completa de sono, Napoleão, com sonecas rápidas, era capaz de manter sua tremenda atividade por dias de 18 a 24 horas.

A terceira qualidade que Napoleão trouxe para o Exército dos Alpes foi um olhar para a topografia. Isso era parte de sua herança corsa. Em uma ilha praticamente sem estradas, para se deslocar rápido de Ajaccio para Bonifácio, ou de um vilarejo para outro, era necessário usar cada desfiladeiro, cada passagem, cada trilha. Uma virada errada poderia custar uma noite nas montanhas, ou uma bala nas costas. Portanto, Napoleão desenvolveu uma “intuição” para o campo: a partir da forma e das linhas das colinas, ele conseguia medir exatamente onde e em que nível os vales escondidos cairiam.

Por fim, Napoleão era um canhoneiro. Ele tinha alguns canhões no momento, mas usaria soldados do mesmo modo que os canhões: concentrado-os em vários lados de uma vez contra um único ponto, e quando esses caíssem, logo os movia para um segundo ponto.

Napoleão, de Vincent Cronin