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27 de maio de 2017

A batalha da qual Napoleão se esquivou no rio Pó ele viria a combater em um rio mais próximo de Milão, o Ada. Havia uma ponte sobre o Ada, na pequena cidade de Lodia, e para tomá-la o comandante Beaulieu deixou sua retaguarda: 12 mil homens e 16 canhões. Ao chegar a Lodi, ao meio-dia do dia 10 de maio de 1796, Napoleão foi fazer o reconhecimento.

Perto do rio havia uma estátua de João Nepomuceno, um santo que preferiu morrer afogado a revelar o segredo do confessionário. Escondido atrás dessa estátua, Napoleão estudou o rio com seu telescópio. Não foi muito profundo, mas foi rápido. A ponte de madeira, sem parapeitos, tinha quase 200 metros de cumprimento e 4 metros de largura. Na margem oposta, os canhões austríacos estavam agrupados em um robusto forte do século XV uma alta torre pentagonal. Eles disparavam enquanto Napoleão fazia o reconhecimento, e um dos seus projéteis explodiu quase aos seus pés: mas São João Nepomuceno foi atingido sozinho, e Napoleão escapou sem nenhum arranhão.

Napoleão decidiu tomar assalto a ponte. Não havia nenhum precedente histórico de ataques a uma ponte sob fogo pesado e seus generais disseram que era loucura. Mas Napoleão foi em frente. Em seu estilo costumeiro, conjugaria esse ataque com um movimento de flanqueamento, desta vez por meio de sua cavalaria, que ele ordenou que galopasse o Ada acima, encontrasse uma travessia e então varresse o lado direito austríaco.

Então ele reuniu sua infantaria, 4 mil deles, na praça da cidade. A maior parte era de Savoia, um deles um colosso ruivo chamado Dupas que, assim como Napoleão, havia testemunhado o ataque das Tulherias e salvou vários suíços da morte. O soldado francês, de acordo com um oficial polonês da equipe de Napoleão, era notável por duas coisas: forma física e um pavor de opróbrio. Era com a última característica que Napoleão estava jogando.

Montado sobre um cavalo branco cavalgou junto com os soldados. Ele queria atacar a ponte, disse aos savoianos, mas não sabia como. Ele não tinha confiança suficiente neles. Eles brincariam disparando seus mosquetes e no final não se atreveriam atravessar. Ele provocou as tropas, incitou, e, por fim, ás 6 da tarde, os levou a um clímax de coragem. Então ordenou que o portão que leva à ponte fosse aberto, e tambores e flautas tocassem seus hinos favoritos: “La Marseillaise” e “Les héros morts pour la liberté”.

Ainda em seu cavalo branco, Napoleão se postou junto à ponte e incitou os savoianos, à medida que eles saíam da praça às pressas, gritando “Vive la République!” e pisoteando a ponte de madeira. À frente cavalgava o colossal Dupas. Canhões austríacos disparavam e a ponte começou a ser varrida por chumbo de todos os calibres. Muitos franceses caíram. Napoleão ansiosamente disparava ordens. Massena, Berthier e Lannes levaram mais voluntários pela terrível longa fileira de tábuas. Quase a 50 metros do final, soldados pularam no rio e nadaram na direção da margem para tentar silenciar os canhões assassinos. Os austríacos responderam com um ataque de cavalaria, que jogou no rio todos os franceses que haviam chegado.

Napoleão olhava constantemente para a nascente do rio, esperando em tensão. Por fim sua cavalaria apareceu — muito tarde, pois não conseguiu encontrar um vau. Ela caiu sobre os austríacos a partir do flanco e silenciou suas armas, de forma que cada vez mais savoianos atravessaram a longa ponte de madeira. À medida que escurecia, os austríacos fugiram, deixando para trás 16 canhões, 335 mortos e feridos, 1,7 mil prisioneiros. As baixas francesas foram de cerca de 200 mortos.

Napoleão, de Vincent Cronin