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10 de junho de 2017

Napoleão estava em uma situação difícil, sozinho com um pequeno exército a mais de 900km de Paris. Foi então que ele jogou na mesa de paz uma nova carta — Veneza. Isso compensaria a Áustria por Milão. É verdade que Veneza ainda não era dele, mas os nobres venezianos odiavam os franceses, e Napoleão acreditava que um confronto seria inevitável. Sua oferta criou comoção, e os austríacos logo aceitaram.

A leitura de Napoleão sobre o sentimento veneziano se mostrou correta. Na Páscoa de 1797, enquanto os termos acordados em Leoben ainda permaneceram secretos, o povo de Verona, incitado por sermões, ergueu-se contra a guarnição francesa e massacrou 400 soldados, inclusive os feridos no hospital, que foram mortos a sangue frio. Outros atos hostis ocorreram; inclusive a captura de um navio de guerra francês pelos venezianos, e a morte de seu capitão. Napolão, que havia considerado agir segundo sua conveniência, foi obrigado a agir imediatamente. Quando maio chegou, Veneza era dele.

Napoleão agora queria que o tratado de paz fosse assinado, lacrado e entregue logo, mas nisso ele viria a ter um choque. Os penitenciários do imperador [do Sacro Império Romano] se movimentavam tão lentamente na mesa de paz quanto o general Wurmser em campo. Gallo, que chegou no dia 23 de maio, insistia em ser chamado em todos os atos de “Sire D. Martius Mastrilli, patrício e nobre de Nápoles, marquês de Gallo, cavaleiro da ordem real de São Januário, camareiro para Sua Majestade rei das Duas Sicílias e seu embaixador na corte de Viena” — uma expressão que custava muita tinta e tempo. Esse cavalheiro pedante estabeleceu como uma concessão que, pelo Artigo I do tratado, o imperador reconhecia a República Francesa. Napoleão ergue-se de um salto: “Tire isso! A República Francesa é como o sol no céu; azar daqueles que não veem”.

Naquele verão, as discussões de paz foram transferidas para Campo Formio, no Vêneto, e Napoleão enfrentou um novo representante austríaco em Ludwig Cobenzl, um profissional atarracado disposto a cada truque do jogo. Esperando por uma reviravolta francesa ou pela ajuda da Inglaterra, ele fez o possível para adiar o tratado. Cobenzl se opôs a um documento do Diretório porque foi escrito — em sóbrio estilo republicano — em papel, não no tradicional pergaminho, e seus lacres não eram suficientemente volumosos. Dois dias foram perdidos. Quando Cobenzl, com um falso ar de lamentação, anunciou a respeito da fronteira do Reno que ele não tinha poderes para agir em nome dos estados germânicos do Império, Napoleão retorquiu: “O Império [isto é, a Alemanha] é um velho cozinheiro acostumado a ser explorado por todo mundo”.

À medida que os atrasos se acumulavam e todas as suas vitórias pareciam estar prestes a ser anuladas, Napoleão ia se tornando cada vez mais irrequieto, e uma vez, agitando seu braço furiosamente, derrubou um precioso jogo de café de porcelana. Por fim, no dia 17 de outubro, o tratado de paz foi assinado, e Napoleão até garantiu uma vantagem de última hora: guardou para a França as Ilhas Jônicas, uma ex-colônia de Veneza, ganhando assim uma posição segura no leste do Mediterrâneo. Enquanto se despedia de Cobenzl, Napoleão se sentiu empolgado o suficiente para pedir desculpas por sua aspereza: “Sou um soldado acostumado a arriscar minha vida todos os dias. Estou no ápice de minha juventude e não consigo mostrar a contenção de um diplomata treinado.”

Por meio do tratado de Campo Formio, Napoleão não só conseguiu uma paz favorável, como garantiu que a Áustria reconhecesse as duas repúblicas italianas que eram o grande ato construtivo de sua campanha italiana. Ele havia chegado como líder de um exército surrado e esfomeado; ele partia comum bom nome, para muitos italianos um benfeitor e libertador. Descobriu em si mesmo novos poderes: como líder militar, como político, mesmo como um diplomata. De acordo com Antoine Arnaut, um dramaturgo que o viu em Mombello, Napoleão “não mostra arrogância, mas tem a postura de alguém que sabe seu valor e se sente no lugar certo”.

Napoleão, de Vincent Cronin