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26 de julho de 2017

Quando Napoleão ditava uma carta ele se concentrava tanto que “era como se estivesse conversando em voz alta com seu correspondente ali mesmo”. Dois dos homens que melhor o conheciam, um deles um civil e o outro um general, afirmam de forma independente que a concentração era o dom mental mais distinto de Napoleão. “Nunca o vi distraído do assunto em questão para pensar sobre o que ele acabara de lidar ou com o que ele lidaria em seguida”, diz Roederer. Napoleão argumentava com seu costumeiro vigor: Quando eu agarro uma ideia eu a pego “pelo pescoço, pelo traseiro, pelos pés, pelas mãos, pela cabeça” até que se esgote.

Sozinho em seu escritório, com seu secretário, Napoleão respondia cartas, emitia ordens, fazia minutas sobre relatórios de ministros, verificava orçamentos, instruía embaixadoras, levantava tropas, movimentava exércitos e fazia os mil e um outros deveres que caíam na cabeça do governo, sempre totalmente imerso na tarefa diante de si, sempre completamente-a antes de passar para a próxima. E isso ele fez durante quatro anos e meio do Consulado, em uma média de oito a dez horas por dia.

Mas isso era somente dois terços do dia de trabalho de Napoleão. O terço restante era gasto na grande Câmara do Conselho das Tulherias. Ali o Conselho de Estado se encontrava, durante os primeiros meses do Consulado todos os dias, e a partir de então por vários dias por semana. Napoleão se sentava em uma cadeira com braços, ladeado por Cambecérès e Lebrun, em uma plataforma elevada acima e diante dos conselheiros, que se sentavam em uma mesa em sua maior parte, cada um especialista em um campo de escolha. Dos 29 originais, somente quatro eram oficiais e, embora a tarefa do Conselho fosse esboçar leis e decretos, somente dez eram advogados. Eles haviam sido escolhidos por Napoleão de todas as partes da França e de todos os meios, baseando-se puramente na capacidade de cada um.

Quando uma questão aparecia perante o Conselho, Napoleão deixava os membros falarem livremente, e dava sua própria opinião somente quando a discussão estava bem avançada. Se ele não sabia nada sobre o assunto, dizia e pedia a um especialista que definisse termos técnicos. As duas perguntas mais ele fazia com mais frequência eram “É justo?” e “É útil?”. Ele também perguntava “É completo? Considera todas as circunstâncias? Como era no passado? Em Roma, na França? Como é em outros países?”.

Se ele considerava um projeto ruim, o descrevia como “singular” ou “extraordinário”, o que significa algo sem precedentes, pois, como ele contava ao conselheiro Mollien: “não tenho medo de procurar exemplos e regras no passado; pretendo manter as inovações úteis da revolução, mas não abandonar as boas instituições que ela destruiu erroneamente”.

Napoleão, de Vincent Cronin