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30 de setembro de 2017

A maior parte do império foi construída quase totalmente dos ganhos obtidos durante duas guerras defensivas, as da Terceira e da Quarta Coalizões. Derrotando exércitos superiores em número por pura habilidade militar, a mesma que lhe havia trazido tantas vitórias na Itália. Tendo conquistado estes ganhos, Napoleão tinha a intenção de conservá-los como o meio mais seguro, e talvez o único, de manter seus inimigos afastados. Para isso, organizou cada componente com cuidado e pensando no todo.

Napoleão, que havia conquistado essas terras no campo de batalha com mosquete, baioneta e canhão, as governava de seu escritório por carta, lei e decreto. Ele se sentia tão à vontade com o cheiro de pólvora nas narinas como com o cheiro de pergaminho e tinta: um general por três meses, e nos três meses seguintes, entregava-se à criação de leis, política e diplomacia. Como napoleão, que raramente analisava seu próprio caráter, observou uma vez a um novo conhecido: “Você sabe, sou excepcional por poder ter tanto uma vida ativa quanto uma sedentária”.

Em nenhum lugar Napoleão demonstrou este dom excepcional com mais bravura do que governando seu Império. A base desse governo era a potência militar. Por isso, em todos os Estados vassalos, Napoleão mantinha algumas tropas francesas. Elas tinham a função de manter a ordem, prevenir invasões e garantir que o povo do Império pagava o custo total da ocupação, e Napoleão acompanhava de perto cada unidade: em fevereiro de 1806 ele disse a Joseph: “Meus registros de soldados são minha leitura favorita”.

O argumento era de que o Império tinha de pagar pelos benefícios recebidos, e os benefícios eram os direitos do homem. Napoleão levara a cada canto do Império a igualdade e a justiça como representadas no Código Civil. Ele desejava libertar os povos da Europa e os treinar para o autogoverno. Ele ainda não os achava politicamente maduros. Eles não podiam se considerar plenamente iguais à França, que havia desenvolvido os direitos do homem, tanto quanto um recruta inexperiente não poderia esperar se igualar a um general com cicatrizes de guerra. Neste sentido, Napoleão seguia uma política de “primeiro a França”. Mas também olhava além. Trouxe para seu Conselho de Estado representantes em treinamento do Império: Corvetto de Gênova, Corsini de Florença, Appelius da Holanda. Um dia, com a experiência adequada e, se a guerra continuasse, lutando lado a lado com seus camaradas franceses, o povo do Império alcançaria a plena maturidade política.

No livro Napoleão, de Vincent Cronin