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11 de outubro de 2017

Se Napoleão gostava de música contagiante, também gostava de livros estimulantes. Sua leitura favorita era História narrativa — “História é para homens” — e sua biblioteca portátil em mogno continha livros de História sobre quase todos os países e épocas. Em 1806, ele estava lendo Gregório de Tours e outros cronistas do final do Império Romano; em 1812, em Moscou, a História de Carlos XII de Voltaire.

Quando conhecia um historiador, Napoleão lhe perguntava qual a época mais feliz da História; o escritor liberal suíço Johannes von Müller disse que haviam sido dos imperadores Antoninos na Roma Antiga; Christoph Martin Wieland achava que não havia época mais feliz: a História acontecia em ciclos, uma resposta que Napoleão aprovou.

Em 1798, enquanto atravessava o Mediterrâneo rumo ao Egito, Napoleão havia levado a bordo uma pequena biblioteca, e para passar as horas no mar sua tripulação pedia emprestado livros dela. Bourrienne leu Paul e Virginie, o jovem Géraud Duroc também leu um romance, e Berthier, tão apaixonado por Giuseppina Visconti quanto Napoleão estava por Joséphine, mas incapaz de se casar-se porque ela já tinha um marido, mergulhou na tristeza sentimental de Werther. “Livros para camareiras!”, zombava Napoleão, embora ele mesmo gostasse de um romance de vez em quando, e disse a seu bibliotecário: “Dê-lhes história. É só o que homens deveriam ler”.

À noite, eles se sentavam no convés em meio à suave brisa de início de verão, e Napoleão propunha questões para debates informais: pressentimentos são um guia verdadeiro para o futuro? Como sonhos devem ser interpretados? Qual a idade da Terra? Há vida em outros planetas? Quando praticamente todos os seus oficiais administrativos se mostravam ateus, Napoleão apontava acima das velas ondulantes do L’Orient, na direção das estrelas brilhantes no céu mediterrâneo: “Então quem fez aquilo?”.

No livro Napoleão, de Vincent Cronin