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14 de outubro de 2017

As lembranças da China e suas conquistas mais admiráveis em alto-mar foram suprimidas. Em 1480, o ministro da Guerra, com uma lógica burocrática implacável, destruiu os registros das viagens de Zheng He. Bem antes de 1500, o imperador baniu a construção de navios de alto-mar e proibiu seus súditos sob pena de morte, de navegarem. A ordem foi parcialmente cumprida, porém o comércio marítimo chinês permaneceu bastante restrito até por volta de 1560, e os estrangeiros eram confinados a poucos portos controlados pela burocracia, para impedir a contaminação da ordem pacífica interna da China.

Essas decisões causaram despesas exorbitantes. O litoral há muito tempo era vulnerável aos japoneses, que saqueavam as costas coreanas e chinesas. Ao assumirem o trono, os Ming perceberam que dificilmente poderiam pôr forças militares em todo o litoral sudeste. Quando os japoneses estabeleceram relações oficiais, Beijing pediu que criassem um guarda costeira contra piratas. Mas, em vez disso, o Japão começou a fazer ataques de pirataria, enquanto a costa chinesa permanecia sem defesa e aberta a piratas de qualquer lugar. Isso sem contar com as frotas de ladrões da própria China.

A extinção oficial do conhecimento chinês de navegação em alto-mar só agravou a situação, com os piratas prosperando, matando, saqueando e capturando reféns para obter resgate. Havia centenas de grupos de piratas, além de uma grande quantidade de rufiões: fugitivos chineses, japoneses e escravos negros que tinham fugido da colônia portuguesa de Macau.

Contudo, a costa continuou a ser uma preocupação menor de Beijing, que, voltada para o norte, ainda não via uma ameaça estratégica vindo do sul. A negligência, no entanto, teve implicações de longo prazo para a defesa marítima, sendo o calcanhar de Aquiles estratégico da China até o século XXI.

O Dragão e os Demônios Estrangeiros, de Harry G. Gelber