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15 de outubro de 2017

A missão de Macartney foi um fracasso total. Recebeu ordem de partir após 47 dias em Beijing. Seu pajem observou mais tarde, talvez de forma um pouco injusta, que “entramos em Beijing como indigentes, lá permanecemos como prisioneiros e partimos como vagabundos”.

De uma perspectiva mais ampla, a missão serviu a objetivos importantes. Trouxe relatórios em primeira mão sobre a grandiosidade da cultura chinesa, de seus palácios, do esplendor sofisticado de seus jardins. Obteve novas informações sobre as rotas fluviais das costas leste e norte da China. E ainda mais importante, trouxa a primeira informação oficial acerca da estrutura do governo da China, e de seus pontos de vista, caráter e preconceitos.

Assinalou a falta de interesse e ignorância de Beijing pelo mundo não chinês, pelo papel da indústria ocidental ou as mudanças do equilíbrio de poder e das condições do comércio. Mesmo em questões de menor importância os ingleses se depararam com incredulidade. Por exemplo, os chineses recusavam-se a acreditar que na Europa as armas de fogo há muito tempo tinham superado o arco e a flecha. Não menos relevante, a missão retornou com opiniões sólidas sobre a miséria disseminada da China e da barbárie de muitos de seus costumes. Também constatou a xenofobia subjacente à polidez oficial e a indiferença popular. Marcartney observou que a elite chinesa “é mais propensa a admirar nossa curiosidade do que a apreciar nossa sabedoria”, e pensa que “o interesse britânico em compreender a China é impertinente em relação a ela e inútil para nós”.

Seu secretário, George Staunton, ressaltou que “neste país eles pensam em que tudo é excelente e que propostas de melhoria são supérfluas, ou mesmo censuráveis”. Outros viajantes foram extremamente críticos quanto aos contrastes entre os princípios e as práticas chinesas, ou quanto aos códigos legais e ao desprezo por qualquer coisa nova e estrangeira; assim como à tendência chinesa generalizada de arrogância, autoritarismo e xenofobia. Macartney também foi bastante perspicaz para notar que, embora o império parecesse enorme e poderoso, estava ameaçado por uma grande debilidade interna.

Apesar de sua admiração por muitos aspectos da cultura chinesa, ele detectou fissuras sociais importantes, como as contínuas e subjacentes tensões entre os Han e os manchus. Observou que a estrutura imperial inteira se baseava na “tirania de um punhado de tártaros sobre mais de 300 milhões de chineses” e disse que: O Império da China é um antigo, decrépito e excelente Homem de Guerra, que uma afortunada sucessão de funcionários vigilantes e competentes conseguiu manter na superfície por esses 150 anos e aterrorizar seus vizinhos apenas por seu tamanho e aparência. Mas quando um homem incompetente assumir o comando do convés, adieu à disciplina e à segurança do navio. Ele talvez não afunde imediatamente, pode ficar à deriva por algum tempo como um náufrago e depois se despedaçar na costa; porém, nunca poderá ser reconstruído sobre seu antigo alicerce.

O Dragão e os Demônios Estrangeiros, de Harry G. Gelber