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21 de outubro de 2017

Em 23 de agosto de 1939, a União Soviética assinou um pacto de não agressão com a Alemanha nazista e, no mês seguinte, os dois países invadiram a Polônia e a dividiram entre eles. Muitos chineses ficaram escandalizados com o acordo de Stálin com Hitler. Esse sentimento talvez tenha sido mais bem articulado pelo fundador do PCC Chen Tu-hsiu, o homem que pusera Mao na trilha do comunismo, mas fora expulso do partido por ser independente demais.

Após passar anos na prisão dos nacionalistas, ele foi libertado com outros prisioneiros políticos quando se formou a “frente unida” nacionalista-comunista, em 1937. Diante do pacto, ele escreveu um poema que expressava “dor e ódio” e comparava Stálin a um “demônio feroz”, que “ invade imperiosamente seu país vizinho […] E cozinha vivos heróis e velhos amigos em única investida […] Certo e Errado mudam como dia e noite, Preto e Branco alteram-se somente por suas ordens […]”

O pacto Stálin-Hitler abriu a perspectiva de que os russos fizessem um acordo semelhante com os japoneses e a China se tornasse uma segunda Polônia. Com efeito, naquele exato momento, o Kremlin assinou um cessarfogo com o Japão e suspenderam-se as hostilidades que vinham acontecendo entre o Exército Vermelho soviético e os japoneses na fronteira da Mongólia Exterior com Manchukuo. O cenário polonês causou grande preocupação em Chiang Kai-shek, que ele expôs a Moscou. A reação de Mao, no entanto, foi de prazer. Toda a sua estratégia para a guerra com o Japão estava voltada para a intervenção da Rússia. Agora, aparecia uma verdadeira chance de que Stálin viesse a ocupar uma parte da China e pusesse Mao no comando.

No final de setembro daquele ano, quando Edgar Snow perguntou a Mao o que ele achava do pacto entre soviéticos e japoneses, sua resposta foi entusiástica. Ele disse que a Rússia poderia assinar tal pacto “desde que isso não prejudicasse seu apoio aos […] interesses do movimento de libertação do mundo [isto é, Mao e o PCC]”. Perguntado se “a ajuda soviética ao movimento de libertação da China poderia tomar uma forma um pouco similar” à da ocupação russa da Polônia, Mao deu uma resposta muito positiva: “Está bem dentro das possibilidades do leninismo”. A Polônia era então o modelo de Mao para a China.

Do mesmo modo, Mao saudou a tomada do leste da Finlândia pela Rússia no início de 1940, embora não para consumo público. Numa diretiva secreta de 25 de junho, afirmou que o acordo de paz soviético-finlandês, pelo qual Moscou anexava grandes fatias do território da Finlândia, “garante a vitória do mundo e da revolução chinesa” (grifo nosso). Depois que a França foi dividida entre uma metade ocupada pela Alemanha e um regime títere com sede em Vichy, Mao traçou de novo uma comparação. Escreveu em linguagem codificada, numa circular enviada aos altos comandantes, em 1o de novembro de 1940: “Há ainda a possibilidade de a União Soviética interferir para ajustar as relações China-Japão”. Referindo-se a uma divisão do tipo imposto à França, acrescentava que os comunistas poderiam “obter um acordo melhor [confiando] em que a União Soviética interferisse para fazer o ajuste e nós continuássemos a tentar”. De novo, Mao esperava que a Rússia dividisse a China com o Japão. Ele tinha até uma linha de demarcação ideal, o Yangtze, que atravessa o meio da China. Para seu círculo mais íntimo, Mao sonhava com “traçar uma fronteira […] no Yangtze, e nós mandaríamos numa metade”.

Reproduzir o cenário polonês estava, de fato, na cabeça de Stálin e a Rússia iniciou conversações com o Japão em setembro de 1939, logo depois da assinatura do pacto nazi-soviético, com o futuro da China no centro das negociações. Stálin, portanto, tinha um interesse muito direto na expansão do Exército Vermelho chinês e do território comunista, pois isso fortaleceria sua posição para negociar com o Japão e promoveria seus objetivos de longo prazo para o pós-guerra.

Mao, de Jung Chang