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22 de outubro de 2017

Durante as férias de verão de 1917, Mao e um amigo perambularam pelo campo por um mês, ganhando comida e abrigo dos camponeses e, em troca, fazendo caligrafias para decorar suas portas da frente. Em outra ocasião, Mao e dois colegas de escola caminharam ao longo de uma ferrovia recém-construída e, quando a noite caiu, bateram à porta de um mosteiro que ficava no alto de um morro, com vista para o rio Xiang. Os monges permitiram que pernoitassem ali. Depois do jantar, os três desceram até o rio por um caminho de pedras, nadaram e em seguida sentaram-se na areia e expuseram suas opiniões, ao som das águas. O quarto de hóspedes tinha uma varanda e os jovens continuaram conversando no silêncio da noite. Um deles ficou emocionado com a beleza da noite tranquila e disse que queria se tornar monge.

Nessa e em outras conversas, o jovem Mao despejava desprezo sobre seus compatriotas. “A natureza do povo do país é a inércia”, dizia. “Eles cultivam a hipocrisia, estão contentes em ser escravos tacanhos”. Tratava-se de um sentimento comum entre as pessoas da época, quando se procuravam explicações para a fácil derrota da China para as potências estrangeiras e para o fato de o país se arrastar com dificuldade na direção do mundo moderno. Mas o que Mao disse em seguida significava um extremismo incomum. “O sr. Mao também propôs queimar todas as coleções de prosa e poesia posteriores às dinastias Tang e Song de uma vez só”, escreveu um amigo em seu diário.

Essa foi a primeira vez em que Mao mencionou um tema que seria típico de seu regime — a destruição da cultura chinesa. Quando disse isso ali, no mosteiro iluminado pela lua, não soou totalmente despropositado. Naquele tempo de liberdade pessoal e intelectual sem precedentes, o momento mais livre da história chinesa, tudo que fora tido como certo era questionado, e o que fora considerado errado era proclamado certo. Deveriam existir países? Famílias? Casamento? Propriedade privada? Nada era chocante demais, exorbitante demais, ou indizível.

Mao, de Jung Chang