#460

28 de outubro de 2017

Um dia, naquele mesmo ano [1908], Cixi passeava num jardim da Cidade Proibida, contemplando as muitas estátuas budistas ali expostas. Por alguma razão, achou que elas não se achavam distribuídas da maneira ideal e ordenou aos eunucos que as mudasse de lugar. A transferência das estátuas de um local para outro expôs uma volumosa pilha de terra.

Com um olhar carrancudo, Cixi mandou que tirassem a terra dali. O chefe dos eunucos, Lianying, pôs-se de joelhos e lhe implorou que não tocasse naquela pilha. A terra estava ali havia mais tempo do que qualquer pessoa se lembrava, e o fato estranho em relação a ela era ter mantido a forma original, sem sequer um torrão fora do lugar. Nenhum pássaro, ao que parecia, jamais pousara nela, e, evidentemente, os ratos e raposas que vagueavam pelos terrenos dos palácios sempre a tinham evitado. Segundo informações passadas de geração em geração, aquela era uma pilha de “terra mágica”, ali posta para proteger a “grande dinastia”.

A imperatriz-viúva tinha fama de supersticiosa, mas deu mostras de se agastar com essa explicação, retrucando: “Que terra mágica é essa? Acabem com essa pilha”. Enquanto o montinho de terra era desfeito, ela resmungou consigo mesma: “Grande dinastia essa! Que grande dinastia é essa?!”. Um eunuco a ouviu e afirmou que ele e seus companheiros se entristeceram: era como se a imperatriz-viúva julgasse que a dinastia Qing ou até mesmo todo o império milenar representava — a China — estivesse chegando ao fim.

A Imperatriz de Ferro, de Jung Chang