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4 de novembro de 2017

A mais antiga referência chinesa sem ambigüidades ao chá vem do século I a.C., tendo começado como uma bebida caseira na China por volta dessa época. Um livro daquele tempo, Regras de trabalho para criados, descreve as maneiras adequadas para se comprar e servir chá. Ele tornara-se tão popular por volta do século IV d.C. que foi necessário começar a cultivá-lo deliberadamente, em vez de simplesmente colher as folhas de arbustos selvagens.

O chá espalhou-se por toda a China e tornou-se a bebida nacional durante a dinastia Tang (618-907 d.C), período considerado uma idade dourada na história chinesa. Durante essa época, a China era o maior, mais rico, e mais populoso império do mundo. Sua população total triplicou entre 630 e 755 d.C., ultrapassando os 50 milhões, e sua capital Changan (a moderna Xian), era a maior metrópole da Terra, onde residiam cerca de 2 milhões de pessoas. A cidade era um ímã cultural, num momento em que a China estava particularmente aberta a influências externas.

O comércio prosperava ao longo das vias mercantis da Rota da Seda, e pelo mar com a Índia, o Japão e a Coréia. As roupas, os estilos de cabelo e o hábito de jogar pólo eram importados da Turquia e da Pérsia; e da Ásia central, junto com o vinho em bolsas de pele de bode. Em troca, a China exportava seda, chá, papel e cerâmica. Em meio a essa atmosfera diversa, dinâmica e cosmopolita, a escultura, a pintura e a poesia chinesa floresciam.

A prosperidade do período e o crescimento da população foram ajudados pela adoção generalizada do costume de se tomar chá. Suas poderosas propriedades antissépticas faziam com que fosse mais seguro de se consumir do que outras bebidas, como cerveja de arroz ou de milho miúdo, mesmo se a água não fosse fervida adequadamente durante a preparação. Pesquisas modernas descobriram que os fenólicos (ácido tânico) no chá podem matar a bactéria que causa a cólera, o tifo e a disenteria. O chá podia ser preparado rápida e facilmente a partir de folhas secas e não se estragava como a cerveja. De fato, era um processo eficiente e conveniente de purificação da água, que reduzia consideravelmente a quantidade de doenças, diminuindo a mortalidade infantil e aumentando a longevidade.

O chá também teve um impacto econômico mais evidente. À medida que o tamanho e o valor do comércio de chá chinês crescia durante o século VII, os comerciantes de chá de Fujian, que precisavam lidar com grandes somas de dinheiro, foram pioneiros no uso de uma nova invenção: o papel-moeda. O próprio chá, na forma de blocos, também veio a ser usado como moeda. Era bastante adequado para esse propósito, ao oferecer uma reserva de valor compacta e leve que podia ser consumida se necessário. O papelmoeda tinha a desvantagem de que seu valor diminuía quanto mais longe fosse levado em relação ao centro do império, ao passo que o chá na verdade aumentava de valor em áreas remotas. O bloco de chá permaneceu em uso como moeda em algumas partes da Ásia central até mesmo nos tempos modernos.

História do Mundo em 6 Copos, de Tom Standage