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11 de novembro de 2017

A prata corria para leste, de Potosí até a Europa, e, depois, da Europa para a Ásia, mas não era essa a única rota até a China, muito menos a mais importante. O dobro do volume de prata que ia para leste também ia para oeste; primeiro até o litoral, e daí para Acapulco, de onde atravessava o Pacífico até Manila, nas Filipinas. Em Manila, a prata era trocada por mercadorias chinesas e, depois, mandada para a China.

Um rio de prata ligava a economia colonial das Américas à economia do sul da China, com o metal extraído num continente usado para pagar mercadoria fabricadas em outro, para o consumo num terceiro. O fluxo desse rio era vantajoso para muitos espanhóis e muitos chineses, mas não para todos. As autoridade reais espanholas queixavam-se regularmente que “toda essa riqueza passa para as mãos dos chineses, e não é trazida para a Espanha, com a consequente perda dos tributos reais”.

Para estancar o fluxo, o rei Felipe II impôs restrições à quantidade de prata que podia ser mandada pelo Pacífico. O que frustou Felipe foi que o lucro das compras feitas em Manila era muito mais alto do que o lucro das mercadorias levadas a Espanha. Havia o imperativo político de fortalecer os laços com a Espanha pelo Atlântico, mas havia o imperativo econômico que empurrava a prata para o Pacífico. E, assim, Manila tornou-se o elo que a economia europeia se prendeu à chinesa: o lugar onde se uniram os hemisférios do globo no século XVII.

O Chapéu de Vermeer, de Timothy Brook