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15 de novembro de 2017

Ao examinarmos o confucionismo só mais um pouquinho a fundo, porém, torna-se problemático equiparar essa tradição a outras religiões, sejam elas do Oriente ou do Ocidente. O confucionismo carece dos elementos mais óbvios de uma religião moderna. Não há nenhum clericato efetivo, nenhuma “igreja” definida nem qualquer deidade central como foco de culto. Ainda que muitos leste-asiáticos prontamente admitam ser bastante influenciados pela filosofia confuciana, poucos se denominam “confucianos” no mesmo sentido que seguidores de outras grandes religiões mundiais se categorizam como, “muçulmanos”, “cristãos” ou “budistas”. Dessa perspectiva, o confucionismo não é uma religião e sim uma filosofia, um modo de vida ou um ensinamento ético.

O papel que Confúcio desempenha em sua própria doutrina também turva o retrato. À diferença de Moisés ou Maomé, Confúcio jamais sustentou que seus ensinamentos fossem revelações divinas. Ele até parece ter intencionalmente diferenciado seus ensinamentos de religião. “Os assuntos sobre os quais o mestre não falava diziam respeito a prodígios, feitos de força, desordens e divindades”, informa-nos um texto antigo. Confúcio não proporcionou respostas às indagações profundas sobre a existência humana que afligiram os fundadores de outros credos: de onde viemos, por que estamos aqui e para onde vamos? Jamais compôs narrativas sobre a criação do mundo nem sobre as origens do homem.

Não há nenhum Jardim do Éden, nenhum Êxodo, nenhuma tomada de Meca que sirva de mitologia fundadora. Ele tampouco especulou sobre o além-mundo. Ainda que aparentemente cresse em alguma forma de vida após a morte — adotou a prática do culto aos ancestrais, que já era comum na China do tempo dele —, jamais formulou explicitamente uma concepção sobre o destino da alma. Na verdade, evitava categoricamente falar sobre a morte. Quando um discípulo o indagou sobre o assunto, Confúcio respondeu: “Nem a vida compreendes: como podes compreender a morte?”.

Confúcio e o mundo que ele criou, de Michael Schuman