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18 de novembro de 2017

Os manchus eram um povo que originalmente vivia na Manchúria, além da Grande Muralha, a nordeste da China. Em 1644, a dinastia chinesa Ming foi derrubada por uma rebelião camponesa, e o último imperador Ming se enforcou numa árvore no jardim no fundos de seu palácio. Os manchus aproveitaram a ocasião para invadir o país. Derrotaram os camponeses rebelados e fundaram uma nova dinastia, a Grande Qing — “Grande Pureza”. Tornando Pequim, a capital Ming, sua própria capital.

De início, os conquistadores manchus, cuja população não passava de um centésimo da população de chineses nativos, os hans, impuseram seu domínio com violência. Obrigaram os homens hans a cortar o cabelo à moda manchu, como uma demonstração visível de submissão. Tradicionalmente, os hans usavam o cabelo comprido e enrolado num coque no alto da cabeça, mas os manchus cortavam o cabelo dos dois lados da cabeça e o deixavam crescer na parte central, fazendo uma trança. Os hans que se recusassem a usar esse rabicho eram sumariamente decapitados.

Na capital, os conquistadores expulsaram os hans da Cidade Interior, concentrando-os na Cidade Exterior, separando os dois grupos étnicos com muros e portões. Com o passar dos anos, a repressão abrandou, e de modo geral os hans vieram a levar uma vida que não era pior do que a dos manchus. A animosidade étnica diminuiu, ainda que os melhores empregos coubessem aos manchus. O casamento entre pessoas de etnias diferentes era proibido, e isso, numa sociedade baseada na família, fazia com que houvesse poucas relações sociais entre os dois grupos.

No entanto, os manchus adotaram grande parte da cultura e do sistema político dos hans, e a administração do Império Manchu, presente em todos os rincões do país, como um polvo colossal, era realizada predominantemente por funcionários hans, selecionados entre os letrados, através dos tradicionais Exames Imperiais, voltados para os clássicos confucianos. Na verdade, os próprios imperadores manchus eram educados segundo o confucionismo, e alguns se tornaram maiores sábios confucianos do que os melhores entre os hans. Por isso, os manchus se consideravam chineses e chamavam seu império tanto de “Império Chinês” (ou “China”) quanto de “Império Qing”.

No livro A Imperatriz de Ferro, de Jung Chang