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25 de novembro de 2017

Chiang Kai-shek, descendente de uma família de comerciantes de sal da província costeira de Zhejiang, nasceu em 1887, seis anos antes de Mao. Conhecido mais tarde no exterior como “Generalíssimo”, era militar profissional e tinha uma aparência impassível, distante e fechada. Fizera treinamento no Japão e, em 1923, como chefe do estado-maior nacionalista, chefiara uma missão que fora à União Soviética. Na época, os russos o viam como da “esquerda dos nacionalistas” e “muito próximo de nós”, mas sua visita de três meses o tornou profundamente antissoviético, em particular na questão da luta de classes: era profundamente avesso à insistência de Moscou em dividir a sociedade chinesa em classes e fazê-las lutar uma contra a outra.

Mas Chiang não disse uma palavra em público sobre sua verdadeira opinião quando voltou à China. Ao contrário, deu a Borodin a impressão de ser “extremamente amistoso conosco e cheio de entusiasmo”. Ele escondeu sua verdadeira posição por um motivo muito simples: os nacionalistas dependiam da assistência militar soviética para conquistar a China. Contudo, ao mesmo tempo que se tornava o segundo homem do Partido Nacionalista, Chiang silenciosamente preparava o terreno para um rompimento e já retirara alguns comunistas de posições-chave em março de 1926. Isso fez com que os russos passassem a conspirar para se verem livres dele. De acordo com um de seus agentes em Cantão, a ideia era “jogar durante algum tempo e preparar a liquidação desse general [Chiang]”. Um ano depois, no início de 1927, Borodin emitiu uma ordem secreta para prender Chiang, mas o plano não se concretizou.

No momento em que o governo de Pequim divulgou os documentos sobre a subversão russa, Chiang entrou em ação. Em 12 de abril, emitiu uma nota que dizia, em resumo: prendam os comunistas. Agiu primeiro em Xangai, que fora o quartel-general do PCC, e onde ele mesmo estava. Os comunistas tinham piquetes armados nessa cidade e Chiang tomou medidas para desarmá-los. Para tanto, recrutou gângsteres para provocar uma briga com os comunistas e assim criar um pretexto para confiscar suas armas. Os baluartes comunistas foram atacados, muitos líderes sindicais foram presos e alguns, fuzilados. As tropas de Chiang abriram fogo com metralhadoras contra uma marcha de protesto. No espaço de poucos dias, houve provavelmente mais de trezentos mortos do lado dos comunistas. Chiang conseguiu destruir a capacidade de atuação pública deles na cidade, mas a liderança do PCC permaneceu, em larga medida, intacta — e, o que é espantoso, Xangai continuou a ser o lugar em que o centro do partido residia e atuava clandestinamente, mesmo em meio ao expurgo. Nos cinco ou seis anos seguintes, Xangai tornou-se sinônimo de liderança do PCC (e usamos a palavra nesse sentido).

Depois que Chiang Kai-shek começou a matar comunistas em Xangai, o chefe nacionalista Wang Ching-wei, que estava em Wuhan, distante seiscentos quilômetros para o interior, rompeu com o PCC e se submeteu a ele. A partir de então, Chiang Kai-shek tornou-se o chefe do Partido Nacionalista e iniciou a montagem de um regime que durou 22 anos no continente, até que Mao o expulsou para Taiwan, em 1949.

Mao, de Jung Chang