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26 de novembro de 2017

A impiedade de Mao produziu uma política eficaz contra Chiang. Tratava-se de “atrair o inimigo bem para dentro da zona vermelha e atacar quando ele estivesse exausto”. Mao argumentava que, como os nacionalistas não estavam familiarizados com o terreno, as condições deveriam favorecer os comunistas. Uma vez que havia pouquíssimas estradas, as tropas nacionalistas teriam de confiar em suprimentos locais, e, como os comunistas controlavam a população, estes poderiam privar o inimigo de comida e água. O plano de Mao era forçar toda a população a enterrar seus alimentos e artigos domésticos, bloquear todos os poços com pedras enormes e retirar-se para as montanhas, de tal modo que o exército de Chiang não pudesse encontrar água ou comida, nem trabalhadores e guias. A estratégia transformava a base vermelha em um campo de batalha, impondo privações colossais a toda a população, a quem Mao jogou na insegurança

Poucos líderes comunistas concordavam com Mao, mas sua estratégia funcionou. Um comandante nacionalista lamentou depois que, em todos os lugares, “não vimos gente, as casas estavam esvaziadas como por uma enchente, não havia comida, potes, panelas […] Não conseguíamos nenhuma informação militar”. Chiang refletiu em seu diário: “A dificuldade de aniquilar os bandidos [comunistas] é maior do que uma grande guerra, porque eles lutam em seu território e podem obrigar a população a fazer o que eles querem”. Contudo, não foi a estratégia brutal de Mao que decidiu a vitória dos vermelhos.

O que realmente fez pender a balança foi a ajuda russa — embora isso continue virtualmente desconhecido. Moscou montou um grupo de assessoria militar de alto nível na União Soviética para planejar estratégias e um comitê militar em Xangai, com assessores russos e de outras nacionalidades (especialmente alemães). A ajuda fundamental veio do serviço secreto militar soviético, o GRU, que tinha uma rede de mais de cem agentes na China, em geral chineses dentro de repartições nacionalistas próximas do Exército Vermelho, cuja principal função era fornecer informações para os comunistas chineses.

No início de 1930, Moscou havia enviado para dirigir sua operação em Xangai um oficial brilhante, o meio alemão, meio russo Richard Sorge. O principal golpe de Sorge foi se infiltrar no grupo de assessores militares alemães do QG de Chiang, graças ao descontentamento da esposa de um deles, Stölzner, que roubou os códigos nacionalistas, inclusive aqueles usados para comunicações entre o comando geral e as unidades em campo. Essa informação dos espiões russos deu a Mao uma vantagem incalculável. O PCC também tinha seus próprios agentes trabalhando no coração do setor de informações nacionalista. Um deles, Qian Zhuang-fei, se tornou secretário confidencial do chefe da espionagem nacionalista U. T. Hsu e desempenhou um grande papel no sucesso de Mao

Em abril de 1931, tropas nacionalistas voltaram para uma segunda “expedição de aniquilação”. De novo, foram frustradas pela tática de “atrair o inimigo para bem dentro da área vermelha”, e de novo Moscou forneceu ajuda e informações fundamentais, dessa vez incluindo um poderoso rádio transmissor-receptor obtido em Hong Kong e técnicos russos em rádio. Para essa campanha, Mao conseguiu interceptar as comunicações do inimigo.

No começo de julho, porém, Chiang Kai-shek em pessoa comandou uma enorme terceira expedição de 300 mil soldados e modificou sua tática, de tal forma que foi muito mais difícil para Mao usar sua vantagem nas informações para montar emboscadas. Além disso, dessa vez as forças do Generalíssimo eram dez vezes maiores do que as de Mao e conseguiram ficar e ocupar as áreas para as quais foram “atraídas”. O Exército Vermelho viu-se impossibilitado de retornar. Dentro de dois meses, a base vermelha foi reduzida para poucas dezenas de quilômetros quadrados e os homens de Mao estavam à beira do colapso. Mas Chiang não continuou a pressionar. Mao foi salvo pelo ator mais improvável: o Japão fascista.

Mao, de Jung Chang