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29 de novembro de 2017

Em seu breve pronunciamento de 400 palavras sobre a abertura à China, Nixon enfatizou que a nova relação com o país “não era dirigida contra qualquer outra nação”. Mas, certamente, Nixon e Kissinger consideravam a iniciativa uma forma útil de pressionar a União Soviética. “O impacto benéfico sobre a União Soviética talvez seja a única grande vantagem que teremos com essa medida”, disse Kissinger ao presidente. Mas eles viam vantagens em obscurecer tal conexão. “A pressão contra os russos é algo que obviamente nunca apontaremos de forma explícita”, aconselhou a Nixon. “Os fatos falam por si mesmo”.

A Casa Branca não queria que a abertura à China exacerbasse as tensões com Moscou. Nixon e Kissinger temiam que isso impulsionasse a Rússia a atacar uma China relativamente fraca com armas nucleares, a fim de eliminar a ameaça de duas frentes. Os dois também não acreditavam que pudessem usar a détente com Moscou para pressionar diretamente Pequim, que poderia recuar da melhora nas relações com Washington e “reexaminar suas opções com a União Soviética”. Como Mao diria a Nixon posteriormente, não era uma boa estratégia tentar ficar de pé “nos ombros da China para alcançar Moscou”.

As dificuldades entre as duas superpotências comunistas, no entanto, faziam com que tudo que os Estados Unidos tentassem com uma ou com outra repercutisse nas capitais de ambas as nações. A abertura para Pequim pressionou Moscou a uma cúpula que Nixon buscava desde 1970. As críticas conservadoras ao pronunciamento do Salt deixavam Nixon mais ansioso do que nunca em promover as relações soviético-americanas. Bill Buckley avisou na National Review que Nixon perderia em 1972, a não ser que ganhasse concessões significativas dos soviéticos em um acordo armamentista com eles.

Durante o encontro em Camp David em 8 de junho, Kissinger pressionou o embaixador soviético, Anatoli Dobrynin, a dar uma resposta sobre a cúpula. “Eu… assinalei para Dobrynin que conversávamos sobre a cúpula havia 14 meses e que não havia nada mais a ser revisto. Era, portanto, o momento de ir direto a questão: a necessidade de uma reunião de cúpula.” Apesar das garantias em abril de que Moscou não tinha precondições para um encontro, Dobrynin respondeu que uma cúpula seria adequada após a conclusão das negociações de Berlim. Kissinger objetou contra a “chantagem”, e alertou que se um acordo não fosse alcançado até o final de junho, isso significaria que o encontro estaria adiado para o próximo ano.

Com a proximidade da viagem à China e expectativas de um compromisso com uma cúpula chinesa em 1972, Kissinger estava bastante otimista de que o anúncio em julho de melhores relações sino-americanas forçaria Moscou a mudar de posição. E isso aconteceu. Em 19 de julho, Kissinger pediu um encontro com Dobrynin e o embaixador soviético deixou Nova York imediatamente. Kissinger estava ansioso pela resposta de Dobrynin ao pronunciamento da China. “Dobrynin foi lisonjeiro e estava, pela primeira vez em minha experiência com ele, totalmente inseguro.”

Kissinger não mediu palavras: “A resposta soviética tem sido de má vontade, especialmente sobre o encontro da cúpula”, ele se queixou. A disposição dos soviéticos de considerar um encontro no final do ano era inaceitável. era considerada uma “rejeição”. “Dobrynin, por sua vez, manifestou várias vezes boa vontade.” Moscou ansiava por um encontro, e perguntava se “nós estaríamos dispostos a ir a Moscou antes de ir a Pequim”. Kissinger disse: “Não”, mas abrandou a rejeição declarando a prontidão dos Estados Unidos de anunciar planos para uma reunião de cúpula com Moscou antes de Nixon ir a Pequim. Dobrynin expressou arrependimento por Kissinger não ter dado a ele algum alerta prévio de sua viagem à China. “Poderia ter afetado nossa decisão”, afirmou.

Nixon e Kissinger, de Robert Dallek