#477

6 de dezembro de 2017

A palavra que Fang Yizhi usa para o fumo é danrouguo, “fruto carnudo da planta danbagu”. Danbagu era o nome que os chineses das Filipinas davam ao fumo. Cunharam-no como transliteração grosseira do espanhol tabaco, que por sua vez, os espanhóis tinham transliterado da palavra caribenha que denominava a cana-oca em que os indígenas caribenhos embalavam as folhas picadas de tabaco para fumá-las. Danbagu soava estrangeiro e esquisito, de modo que os chineses adaptaram a palavra que significava “fumaça” (yan), e chegaram à expressão chi yan, “comer fumaça”.

Os intelectuais chineses remoeram a questão sobre a proveniência do fumo. Alguns supuseram que era nativo das Filipinas, já que de lá chegara a Fujian. Outros suspeitaram que o povo das Filipinas “obteve suas sementes do grande oceano oeste”, expressão abrangente para a região distante de onde vinham os europeus.

Os milhares de fujianeneses que comerciavam com os espanhóis em Manila sabiam que estes cruzavam o oceano Pacífico vindos de um lugar chamado Yameilijia (América), e podem ter aprendido que era de lá que chegavam as sementes. Mas não eram eles que escreviam diários e publicavam ensaios. Na hora de conhecer o fumo, o abismo entre a intelligentsia e a gente do povo era tão grande na China do século XVII quanto na Europa.

O Chapéu de Vermeer, de Timothy Brook