#478

9 de dezembro de 2017

Os encontros durante os próximos sete dias foram cuidadosamente orquestrados. As manhãs eram dedicadas a passeios, filmados pela televisão para mostrar aos americanos um relance dos monumentos da China e de sua longa história. Mais importante para Nixon, era promovida a sua imagem como um estadista mundial honrado e respeitado em um país distante. Felizmente, as cenas repercutiam mais do que suas palavras: “Esta é uma muralha enorme”, disse à impressa em um comentário, memorável por sua banalidade, sobre a Grande Muralha.

As tardes eram reservadas para conversas entre o presidente e Zhou Enlai e à noite realizados banquetes para centenas de pessoas com comidas e bebidas suntuosas entremeados pelos gritos de gam bei, ou “saúde”, obrigando os que brindavam a esvaziarem suas taças de mao-tai, que para Kissinger tinha gosto de combustível de avião. Os banquetes também era transmitidos ao vido para os Estados Unidos,e entre 6h e 8h da manhã.

As discussões na parte da tarde eram caracterizadas por uma retórica pretensiosa e sem conteúdo. “Não podemos dissimular nossas diferenças com protocolos e palavras bonitas”, declarou Nixon. “Colocar uma boa aparência sobre nossas diferenças fundamentais de opinião não serve para melhorar nossas relações. A forma convencional de conduzir uma cúpula como essa, enquanto o mundo nos observa, é ter encontros durante vários dias .. e depois publicar um comunicado evasivo para ocultar os problemas”.

Zhou Enlai concordou: “Se formos agir assim não só enganaríamos as pessoas, mas, antes de tudo, a nós mesmos”. Nixon reforçou o argumento: “Isso é adequado quando as reuniões são entre Estados que não afetam o futuro do mundo, mas não estaríamos cumprindo nossa responsabilidade nessas reuniões … que afetarão nossos aliados no Pacífico e em todo o mundo no futuro se assim o fizermos”.

As conversas não apresentaram surpresas. Na maior parte das vezes, Nixon elaborou as afirmações de Kissinger sobre Taiwan, Moscou, Japão, o sul da Ásia e o Vietnã em suas visitas anteriores. E Zhou aprofundou as impressões de Nixon e Kissinger de um governo com medo de ser cercado de países hostis liderados pela União Soviética. A tarefa da nova relação sino-americana era resistir às “aspirações hegemônicas”, eufemismo para as ambições soviéticas. A China não tinha a intenção de intervir no conflito no Sudeste da Ásia, apesar da afinidade com o Vietnã do Norte. O objetivo era garantir uma perspectiva comum com relação aos perigos da ordem internacional.

Nixon e Kissinger, de Robert Dallek