#479

10 de dezembro de 2017

Como as conversas não levaram a nenhum compromisso substancial (a continuação da liga oficial com o Taiwan impedia o reconhecimento da China comunista), parecia essencial emitir um comunicado que demonstrasse uma mudança significativa nas relações sino-americanas.

Kissinger trabalhou durante 20 horas com os chineses para extrair palavras que servissem às necessidades de ambos os lados com relação a Taiwan e a União Soviética. Enquanto o governo Nixon sofria pressão interna para não abandonar Taiwan, o de Mao não deixava de insistir na retirada do apoio dos Estados Unidos à independência de Taiwan.

Eles resolveram o problema por meio de um reconhecimento dos Estados Unidos de que só havia uma China da qual Taiwan era uma “parte”. Em troca, os chineses concordaram com uma declaração de que o governo dos Estados Unidos “reafirma seu interesse em um acordo pacífico para a questão de Taiwan feito pelos próprios chineses. Com essa perspectiva em mente, era afirmado o objetivo definitivo da retirada de todas as forças dos Estados Unidos e instalações militares de Taiwan. Nesse meio tempo, as forças e instalações militares americanas em Taiwan seriam progressivamente reduzidas conforme a tensão da área diminuísse.” Ou seja, a retirada dos Estados Unidos se baseava em um implícito compromisso comunista chinês de evitar uma resolução militar de suas diferenças com o KMT em Taipei.

Mais importante, os dois lados demonstravam sua determinação comum de promover a “normalização das relações” e resistir ao expansionismo soviético. Eles declararam oposição “contra as tentativas de qualquer outro país ou grupo de países de estabelecer uma hegemonia… Ambos os lados acreditam que seria contra os interesses dos povos do mundo se alguma grande potência conspirasse com outra contra outros países, ou se grandes países dividissem o mundo em esferas de interesse.”

Perto do fim da conferência, Nixon ficou angustiado, com dúvidas sobre se a cúpula seria vista como um grande empreendimento. Embora Nixon entendesse perfeitamente o que tinha levado à revolução nas relações com a China e estivesse certo ao acreditar que julgamentos longos seriam quase universalmente positivos, ele não podia abandonar as incertezas por trás de sua ambição — nenhum triunfo, por maior que fosse, poderia saciar sua busca pela aceitação ou, melhor, auto-estima. Se sua queixa ao terapeuta após a derrota de 1962 — a de que ele era alguém de pouco valor — tinha ligação com suas experiências de vida, seu pessimismo após seu sucesso na China revelam muito sobre seu ser. Certamente, havia críticas da impressa e reclamações da direita de que ele tinha vendido Taiwan, mas a reação mais universal à cúpula foi de uma aprovação entusiasmada.

“Nos deparamos com um fenômeno curioso”, disse Kissinger, “que o sucesso parecia abalar Nixon mais que o fracasso. Ele parecia obcecado com o medo de não receber o mérito adequado.” O presidente não conseguia aceitar a realidade de que os atos falam mais alto. “A convicção de que a reputação de Nixon dependia menos de suas ações do que da forma como elas eram apresentadas arruinava o governo”, observou Kissinger. “Isso lhe transmitia insegurança até mesmo durante suas maiores realizações. E transmitia um caráter frenético à necessidade de apoio, uma busca interminável que se provou impossível de ser satisfeita.”

Nixon e Kissinger, de Robert Dallek