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17 de dezembro de 2017

A popularidade do chá durante a dinastia Tang foi demonstrada pela imposição do primeiro tributo sobre ele em 780 d.C. e pelo sucesso de um livro publicado no mesmo ano: O clássico do chá, de Lu Yu, um célebre poeta taoísta. Escrito a pedido dos mercadores que vendiam chá, o livro descreve seu cultivo, sua preparação e os modos de servi-lo com muitos detalhes. Lu Yu escreveu muitos outros livros sobre o tema, e nenhum aspecto escapou ao seu exame. Ele descreveu os méritos dos vários tipos de folhas, o melhor tipo de água para usar na preparação (idealmente, água de correntes montanhosas de fluxo lento; água de poço somente se não houver nenhuma outra disponível) e enumerou até mesmo os estágios do processo de fervura da água. “Quando a água estiver fervendo, deve parecer como olhos de peixes e não desprender senão um sinal de som. Quando nas beiradas ela faz barulho como uma fonte borbulhante e se parece com pérolas incontáveis e reunidas, terá atingido o segundo estágio. Quando salta como ondas majestosamente e soa como uma vaga que cresce, vai estar em seu pico. Mais um pouco e a água vai se evaporar e não deve ser usada.”

O paladar de Lu Yu era tão sensível que se dizia que ele era capaz de identificar a fonte da água apenas pelo seu gosto, e até mesmo determinar o trecho do rio do qual ela havia sido retirada. Mais do que qualquer outra coisa, Lu Yu transformou o chá de uma simples bebida para matar a sede em um símbolo de cultura e sofisticação. A degustação e a apreciação dessa infusão tornaram-se altamente bem-vistas, particularmente a capacidade de se reconhecer os diferentes tipos.

O preparo do chá tornou-se uma honra reservada ao chefe da residência, e a incapacidade para se preparar bem um chá, de modo elegante, era considerada uma desgraça. Coquetéis e banquetes cujo foco era o chá tornaram-se populares na corte, onde o imperador tomava chás especiais, feitos com água transportada de nascentes específicas. Isso conduziu à tradição de se apresentar “homenagens especiais de chá” ao imperador todos os anos.

A popularidade do chá manteve-se durante a próspera dinastia Sung (960 a 1279), mas caiu em desgraça oficial quando a China ficou sob domínio mongol durante o século XIII. Os mongóis eram originalmente um povo nômade e pastoril que cuidava das tropas de cavalos, das cáfilas de camelos e dos rebanhos de carneiros nas estepes abertas. Sob o poder de Gêngis Khan e seus filhos, eles estabeleceram o maior império da história considerando terras contínuas, abrangendo a maior parte da massa de terra eurasiana desde a Hungria, no oeste, até a Coréia, no leste, e bem mais ao sul até o Vietnã. Apropriadamente para uma nação de hábeis cavaleiros, a bebida mongol tradicional era o kumiss, feito pela desnatação e fermentação do leite de égua numa bolsa de couro, de modo a transformar os açúcares da lactose no leite em álcool.

Isso explica por que o veneziano viajante Marco Polo, que passou muitos anos na corte chinesa durante esse período, não fez nenhuma menção ao chá além de anotar a tradição do tributo do chá para o imperador (embora ele tenha notado que o kumiss era “como vinho branco e muito bom de se beber”). Os novos governantes da China não mostraram nenhum interesse pela bebida local e mantiveram suas próprias tradições culturais. Kublai Khan, governante da porção oriental do império mongol, fez com que a grama das estepes fosse plantada nos pátios de seu palácio chinês, e bebia um kumiss preparado especialmente com leite de éguas tordilhas.

Para enfatizar a extensão e diversidade do império mongol, o irmão de Kublai, Mangu Khan, instalou uma fonte de prata para bebidas na capital mongol de Karakorum. Suas quatro bicas distribuíam cerveja de arroz da China, vinho de uvas da Pérsia, hidromel do norte da Eurásia e kumiss da Mongólia. Não havia chá em lugar nenhum para ser visto. Mas o extenso império simbolizado por essa fonte demonstrou-se insustentável e entrou em colapso durante o século XIV. Um renovado entusiasmo pelo consumo do chá foi então uma maneira pela qual a cultura chinesa reafirmou-se, em seguida à expulsão dos mongóis e com o estabelecimento da dinastia Ming (1368-1644). A preparação e o consumo do chá começaram a ficar cada vez mais elaborados; a atenção meticulosa a detalhes defendida por Lu Yu foi revivida e estendida. Voltando ao passado com suas raízes religiosas, o chá passou a ser visto como uma forma de alívio tanto espiritual como físico.

História do Mundo em 6 Copos, de Tom Standage