#486

27 de dezembro de 2017

Os Analectos nos contam sobre um homem chamado Jie Yu, conhecido como “o louco de Chu”, que passou por Confúcio cantando uma canção:

Como tua virtude decaiu!
O que se passou é irremediável,
Mas o porvir ainda não está perdido.
Desiste, desiste!
Periclitante é a sina dos que ora detêm cargos públicos.

Confúcio saltou da carruagem em que seguia para conversar com o louco, mas ele já tinha se afastado às pressas. O louco, assim parece, tenta persuadir Confúcio a tomar um rumo completamente diferente. Jie Yu dava a entender que o mestre desperdiçara grande parte de sua vida em uma busca infrutífera e que qualquer homem com convicções éticas e determinação como as dele que ingressasse na brutal política da época estava arriscando sua vida.

O louco propugnava que Confúcio abrisse mão de tudo — e talvez seguisse o exemplo de Jie Yu: em vez de se ocupar com o mundo, deveria se retirar de uma sociedade equivocada que jamais apreciaria. Confúcio pode ter ficado intrigado — daí seu ímpeto de conversar com o louco —, mas jamais seria capaz de virar as costas para o mundo. Os Analectos deixam isso claro no segmento seguinte, em que Confúcio declara: “Não é possível associar-se a pássaros e bichos. Não faço parte da espécie humana?”.

Confúcio e o mundo que ele criou, de Michael Schuman