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14 de janeiro de 2018

O contraste de estilo entre Nixon e Mao ficou evidente na conversa relativamente breve entre eles. Ansioso para tratar logo de negócios e conseguir vantagens, Nixon, temendo que sua reputação de ardoroso anticomunista impedisse Mao de confiar nele, declarou que desacordos passados não deveriam influenciar decisões atuais. “Nos aproximamos por causa do reconhecimento de uma nova situação no mundo e por sabermos que o importante não é a filosofia política interna da nação”, disse. “O importante é sua política com relação ao restante do mundo e a nós”.

Quando Nixon indicou os países — Japão, Coréia, Vietnã e União Soviética — de relevância para ambos, Mao respondeu: “Tantos problemas inoportunos, não quero entrar muito neles. Eu acho que seu assunto é melhor — questões filosóficas”. Quando Nixon se referiu à futura eleição nos Estados Unidos, Mao repetiu o argumento: “Essas questões não são para serem discutidas comigo, mas com o primeiro-ministro”.

Nixon estava ansioso para bajular Mao. Apesar de sua resistência inicial à sugestão de Kissinger de discutir “história e filosofia” com ele, o presidente disse a Zhou que gostaria de conversar “questões filosóficas” com Mao. Quando o líder máximo chinês questionou sobre isso, Nixon respondeu: “Li os poemas e os discursos do presidente, e soube que ele era um filósofo profissional”. Kissinger se intrometeu: “Eu costumava passar os textos do presidente para minhas turmas em Harvard”. Mao declarou: “Esses meus textos não são nada. Não há nada de instrutivo no que escrevo”. Nixon contestou: “Os textos do presidente tocaram uma nação e mudaram o mundo”. Mas Mao insistiu: “Não fui capaz de mudá-lo. Só consegui mudar alguns locais nas redondezas de Pequim”.

Nixon trouxe a conversa de volta para o presente: “Sabemos que o senhor e o primeiro-ministro assumiram muitos riscos em nos convidar para vir até aqui. Mas ao ler algumas das declarações do presidente, percebe que se trata de alguém que sabe que diante de uma oportunidade é preciso aproveitar a hora e aproveitar o dia.” Mão rejeitou a referência a suas palavras brincando: “Acho que, no geral, pessoas como eu soam como grandes canhões.” Zhou Enlai riu. As brincadeiras disfarçavam a seriedade das observações de Mao. Ao falar, Kissinger escreveu posteriormente, “[Mao] pegava o ouvinte de surpresa, em uma atmosfera ao mesmo tempo confusa e um pouco perigosa. Era como lidar comm um personagem de outro mundo que às vezes levantava um pedaço do véu que encobre o futuro, permitindo um vislumbre, mas nunca a visão inteira, vista só por ele.”

“Torci pelo senhor na última eleição”, Mao declarou com um sorriso. O senhor “torceu pelo menor dos males”, Nixon disse. “Gosto de conservadores”, Mao respondeu, certamente se divertindo. “Fico bastante feliz quando a direita chega ao poder.” Nixon reforçou o argumento. Nos Estados Unidos, “pelo menos dessa vez, a direita faz o que a esquerda só fala”. Kissinger acrescentou: “Além disso, senhor presidente, a esquerda é pró-soviética e não é favorável à aproximação com a República Popular [da China].”

Quando Nixon e Kissinger estavam para ir embora, Mao andou bem devagar até a porta para os acompanhar, confessando não se sentir bem. “O senhor está com ótimo aspecto”, Nixon garantiu a ele. “As aparências enganam”, Mao respondeu, talvez sugerindo que os americanos teriam de dar provas de suas palavras amigáveis.

Nixon e Kissinger, de Robert Dallek