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17 de janeiro de 2018

Com o decorrer dos séculos, a dinastia Zhou perdeu o poder. O império era enorme e sua administração inábil. Por conseguinte, os senhores locais prestavam cada vez menos atenção ao centro. Os Zhou sempre formaram um pequeno grupo de tribos nômades de mongóis, turcomanos e alguns tibetanos que viviam ao redor ou entre eles, fazendo com que a população estivesse longe de ser homogênea. Quando os aliados dos Zhou se espalharam pelo país, eles se tornaram mais independentes e menos incentivadores do centro, que se ocupava em rechaçar rebeldes e ataques. Os senhores locais, então, passaram a governar os grupos por conta própria. Por fim, em 771 a.C., uma aliança de senhores do norte e tribos nômades atacou a capital Xi’an e matou o governante.

Ao mesmo tempo, uma vez que o conceito moderno de fronteira indiscutível não existiu por 2 mil anos ou mais, a expansão e o declínio do governo Zhou suscitaram novas questões de legitimidade. A fim de convencer seus povos da legitimidade de seu poder, os governantes inventaram a concepção do “Mandato do Céu”, ideia que permaneceu crucial nas noções subjacentes de autoridade desde então. Evidentemente, o céu reinava supremo entre todas as forças sobrenaturais e determinava os assuntos humanos. A monarquia era vista como uma posição intermediária entre o céu e a terra, e o imperador, ostentando o título de “Filho do Céu”, era designado para cuidar do bem-estar de seus súditos. Também parecia lógico que, como chefe de governo, ele fosse o intermediário supremo entre o céu e a terra, e caso negligenciasse suas obrigações ou se tornasse corrupto, o céu retiraria seu mandato e o concederia a outra pessoa.

Quando a benevolência celestial parecesse ter se retraído — a seca ou a escassez de víveres poderia ser uma evidência disso — o governante teria, é claro, perdido todas as suas qualidades sobrenaturais e, em consequência, o Mandato do Céu para governar. Se houvesse uma tentativa bem-sucedida de destronar o monarca, isso seria uma prova de que o mandato fora adequadamente transferido. Se a ação contra o imperador falhasse, o agressor seria apenas um rebelde e merecia morrer. Isso era uma teoria de governo baseada no comportamento moral do governante e na gestão em benefício de toda a população, que continuaria a influenciar a política por séculos. Também ajudou a moldar as relações externas e, com isso, um poderoso sentimento de superioridade da China.

Esses princípios de governabilidade social, política e de relações externas, inclusive a noção do Mandato do Céu e do governante como o veículo entre o céu e a terra, eram só uma espécie de fundação sobre a qual outros poderiam construir; especialmente os dois pensadores seminais da China e do mundo, Confúcio (551-479 a.C.) e seu discípulo Mêncio (372-289 a.C.), cujas vidas coincidiam com as de alguns dos grandes filósofos da humanidade, como o Buda por volta dos anos 500 a.C. e Sócrates, Platão e Aristóteles um século mais tarde na Atenas de Péricles.

O Dragão e os Demônios Estrangeiros, de Harry G. Gelber