#505

10 de fevereiro de 2018

Outro elemento central de seu caráter que Mao revelou ainda jovem foi o prazer que sentia com a sublevação e a destruição: “Guerras gigantescas durarão tanto quanto o céu e a terra e jamais se extinguirão […] O ideal de um mundo de Grande Igualdade e Harmonia [da tong, sociedade ideal confucionista] está errado”.

Não se tratava apenas da previsão que poderia ser feita por um pessimista: era o desideratum de Mao, que ele asseverava que a população em geral desejava. “A paz duradoura”, sustentava, “é insuportável para os seres humanos, e ondas enormes de perturbação precisam ser criadas nesse estado de paz […] Quando olhamos para a história, adoramos os tempos de [guerra] quando dramas aconteceram um depois do outro […] que tornam a leitura sobre eles uma grande diversão. Quando chegamos aos períodos de paz e prosperidade, ficamos entediados […] A natureza humana ama mudanças rápidas e súbitas.”

Mao simplesmente esquecia a diferença entre ler sobre eventos eletrizantes e viver um cataclismo real. Ignorava o fato de que, para a avassaladora maioria, a guerra significava miséria. Ele até articulou uma atitude de cavaleiro perante a morte: “Os seres humanos são dotados do sentimento de curiosidade. Por que deveríamos tratar a morte de modo diferente? Não queremos experimentar coisas estranhas? A morte é a coisa mais estranha, que você jamais experimentará se continuar vivendo […] Alguns têm medo dela porque a mudança é demasiado drástica. Mas penso que essa é a coisa mais maravilhosa: em que outro lugar deste mundo podemos achar uma mudança tão fantástica e drástica?”

Usando o plural majestático, Mao continuava: “Nós amamos velejar num mar de sublevações. Ir da vida para a morte é experimentar a maior sublevação. Não é magnífico?!”. À primeira vista, essa declaração pode parecer surreal, mas depois que dezenas de milhões de chineses morreram de fome durante seu regime, Mao disse ao círculo dos mais íntimos que não importava se as pessoas morressem — e até aquelas mortes deviam ser comemoradas. Como fazia frequentemente, só aplicava o que dizia aos outros, não a si mesmo. Ao longo de toda a vida, carregou a obsessão de encontrar modos de driblar a morte, fazendo de tudo para aperfeiçoar sua segurança e melhorar seus cuidados médicos.

Quando chegou à questão de como mudar a China, Mao pôs grande ênfase na destruição: “o país precisa ser […] destruído e depois reformado”. Essa ideia não se aplicava apenas à China, mas também ao resto do mundo — e até ao universo: “Isso se aplica ao país, à nação e à humanidade […] A destruição do universo é a mesma coisa […] Pessoas como eu anseiam por essa destruição, porque, quando o velho universo for destruído, um novo universo se formará. Não é melhor assim?!”.

Mao, de Jung Chang