#506

11 de fevereiro de 2018

Em uma excursão ao alto do morro, Mao viu uma choupana de sapé em chamas, ao longe. Os moradores estavam do lado de fora, impotentes, enquanto o fogo engolia sua casa. De acordo com a fotógrafa de Mao, ele “se virou para mim com um olhar de relance e disse com frieza: ‘Fogo bom. É bom queimar, bom queimar!’”. A fotógrafa ficou pasma. Ao perceber a reação dela, Mao acrescentou: “Sem o fogo, eles continuariam a morar naquela choça”.

“’Mas agora que foi destruída pelo fogo, onde eles vão viver?’ ele não respondeu à minha pergunta, como se não tivesse escutado”. Mao não tinha resposta para essa pergunta. Durante todo o seu regime, os camponeses tiveram de se virar sozinhos no que tangia à moradia. O Estado não oferecia financiamento. Até nas áreas urbanas, afora apartamentos para a elite e blocos residenciais em complexos industriais, praticamente nenhuma habitação foi construída.

Observando a cabana de sapé se transformar em cinzas, Mao acabou dizendo para si mesmo: “hum, realmente limpo se a terra caiu para completar o vazio e o nada!”. Tratava-se de um verso do clássico: “O sonho do pavilhão vermelho”. Mas Mao estava fazendo mais do que recitar poesia. Tratava-se de um eco da atração pela destruição que expressara de modo alarmante na juventude. Ele continuou: “isso se chama ’Nenhuma destruição, nenhuma construção’”.

Mao, de Jung Chang