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14 de fevereiro de 2018

O cabo de guerra entre o Islã e o cristianismo mudou de curso naquele dia de 732 d.C. Na estrada fora de Poitiers, os exércitos do islã bateram em um muro irremovível de francos desgrenhados, mas resolutos — os povos germânicos ocidentais que tinham se instalado muito tempo atrás no território romano —, liderados por Carlos Martel, que era conhecido por seus homens como o Martelo. As linhas de infantaria curvaram-se como redemoinhos de esquadras de cavaleiros árabes esmagados nas fileiras da frente, embora se recusassem a ceder.

As famosas táticas árabes que durante um século conseguiram resultados espetaculares — o corte da linha de frente, dispersar enquanto se soltam as flechas, enxamear à volta de amontoados confusos e pegá-los um a um — falharam pela primeira vez, e corpos muçulmanos empilhavam-se na frente de escudos francos. Lutas esporádicas continuaram durante a noite, mas pela manha os invasores que sobreviveram se dispersaram e voltaram para a Espanha.

Durante décadas, grandes exércitos islâmicos continuariam a marchar pelos Pirineus; em breve alcançariam os Alpes e mandariam Martel de volta para o combate. Quando as invasões finalmente se esgotaram, isso aconteceu muito mais graças às lutas rancorosas de poder entre as dezenas de milhares de imigrantes árabes e berberes que tinham começado a se espalhar pela Espanha do que às proezas militares de parte da cristandade ocidental.

Mesmo assim, salteadores muçulmanos controlariam as passagens alpinas — o maior saque deles foi a abadia de Cluny, o monastério mais rico da Europa, que deu a eles o resgate de um rei — e piratas muçulmanos assaltariam os mares até que os cristãos “não pudessem nem mesmo colocar uma prancha dentro da água”, conforme regozijou-se um chefe do entourage do califa. Ainda no Ocidente, a batalha de Poitiers seria lembrada como o ponto de virada. Foi para descrever os homens de Martel que um cronista cunhou pela primeira vez o termo europenses — “europeus”.

Guerra Santa, de Nigel Cliff