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21 de março de 2018

Um fator que manteve a cultura apreciadora de vinhos era a sua forte associação com o cristianismo, cuja ascensão durante o primeiro milênio elevou o vinho à posição máxima de significação simbólica. Segundo a Bíblia, o primeiro milagre de Cristo, bem no começo de sua missão, foi transformar seis jarros de água em vinho num casamento perto do mar da Galiléia. Cristo contou várias parábolas sobre o vinho e com frequência comparava-se a uma videira, dizendo a seus seguidores: “Sou a videira, vocês são os galhos.”

A oferenda feita por Cristo a seus discípulos na Última Ceia conduziu o vinho a seu papel na eucaristia, o principal ritual cristão, em que o pão e o vinho simbolizavam respectivamente o corpo e o sangue de Cristo. Isso foi, de várias maneiras, uma continuação da tradição estabelecida pelos participantes dos cultos de Dionisio e a sua encarnação romana, Baco.

Os deuses do vinho da Grécia e de Roma, assim como Cristo, eram associados a milagres relativos a produção dessa bebida e à ressurreição após a morte. Como os cristãos, seus adoradores consideravam o ato de beber vinho uma forma sagrada de comunhão. Não obstante, há diferenças marcantes. O ritual cristão não se parecem em nada com seu equivalente dionisíaco: o cristão envolvia porções bem reduzidas de vinho, ao passo que o outro requer grandes quantidades, que sejam consumidas em excesso.

Tem-se sugerido que a necessidade de vinho para a comunhão por parte da tradição cristã exerceu um papel importante, mantendo a produção de vinho durante a era sombria que se seguiu à queda de Roma. Todavia, isso é um exagero, apesar dos laços estreitos entre o vinho e o cristianismo. A quantidade de bebida necessária para a eucaristia era mínima; por volta do ano 1100 era cada vez mais comum a situação em que somente o padre celebrante bebia do cálice, enquanto a congregação recebia o pão. A maior parte do vinho produzido por vinhedos de terras da Igreja ou nas proximidades de mosteiros era para o consumo diário daqueles que faziam parte das ordens religiosas. Monges beneditinos, por exemplo, recebiam uma provisão diária de cerca de meio litro. Em alguns casos, a venda do vinho feito nas terras da Igreja era uma fonte de renda valiosa.

História do Mundo em 6 Copos, de Tom Standage