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31 de março de 2018

Napoleão reconheceu que a maioria dos franceses queria voltar a praticar a fé católica. Mas sob que forma? havia duas Igrejas na França, cada uma com seus bispos, padres e locais de culto — às vezes clandestinos — uma odiando a outra. Napoleão tivera experiências pessoais daquele ódio. Passando por Valença em sua volta do Egito, encontrou o corpo de Pio VI não enterrado depois de seis semanas porque o clero constitucional se recusava a realizar os últimos ritos para alguém que descrevera como “sacrilégio” a venda das terras da Igreja. “Um pouco demais”, foi o comentário de Napoleão.

Em fevereiro de 1800, um padre robusto de rosto redondo e castigado veio ao palácio das Tulherias para contar a Napoleão sobre o povo do Oeste. Seu nome era Étienne Bernier, ele tinha 38 anos de idade. Filho de um tecelão de Mayenne, fez um brilhante doutorado em teologia, recusou obediência ao juramento Constitucional e se juntou às guerrilhas da Vendeia, que vinha há sete anos lutando obstinadamente pelo direito de praticar a fé de seus pais, e compartilhando de sua arriscada vida em matagais e brejos.

Bernier descreveu incidentes de guerra a Napoleão: soldados ajoelhados em calvários de pedra antes de entrar em batalha cantando a Vexilla Regis; 20 mulheres de Chanzeaux, levadas pelo seu pároco, protegendo-se na torre da igreja e lutando até que todas morreram; o amado general guardador de caça Stofflet morrendo com o grito “Vida longa à religião!”. Então, as represálias pelos Azuis: os aldeões de Les Lucs se reuniram em sua igreja, que foi então incendiada; vendeienses que se recusavam a demolir uma cruz, crucificados; duas camponesas, acusadas de colocar flores num altar, mortas cantando a Salve a Rainha. Por sete tristes anos, Bernier disse a Napoleão, o oeste veio executando tais atos de heroísmo.

Napoleão ouviu profundamente impressionado, como sempre, por histórias de bravura pessoal. Ele sabia que Bernier estava certo em seus fatos, pois o Ministério do Interior havia lhe dito que as tropas do Governo não conseguiram extirpar o catolicismo na Vendeia. “Eu teria orgulho de ser vendeiense”, ele disse a Bernier. “… certamente algo deve ser feito para as pessoas que fizeram tais sacrifícios”.

Napoleão, de Vincent Cronin