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28 de abril de 2018

Em paralelo a ideias populares, havia no século XVIII uma outra corrente de pensamento cujas origens se encontravam na fermentação intelectual que vinha tomando conta da Europa desde os tempos de Spinoza, e que estava cada vez mais presente também na Espanha e em Portugal. Baseando-se em argumentos racionalistas e em noções de pragmatismo político e econômico, primeiramente Montesquieu e Voltaire e depois a geração de Diderot, Hume, Rousseau e d’Alembert defendiam um conceito de religião que podia ser um apoio pragmático para a sociedade civil ou um guia para uma vida moral, mas que se afastava muito de uma verdade última ou absoluta.

Montesquieu sustentava que a religião inculcava valores éticos úteis, e mesmo o deísta Voltaire, com todas as suas dúvidas sobre a instituição eclesiástica e a existência de um além mundo, ainda acreditava numa divindade benévola e reconhecia a utilidade social de uma crença popular no inferno que mantivesse a ordem na sociedade. Muitos philosophes passaram a crer numa “religião natural” e não tinham preferência especial por qualquer religião em particular. Em sua maioria, certamente defendiam a liberdade em matéria de consciência, desde que a crença não prejudicasse a sociedade civil.

Na Península Ibérica, os defensores de tais ideias costumavam se inspirar nessas e em outras fontes estrangeiras. Eles incluíram a defesa da liberdade de consciência como parte integrante da defesa cada vez mais recorrente do tolerantismo religioso (em relação a ideias liberais e reformistas). Quando o mundo hispânico foi levado a ingressar no processo de transformação filosófica, política e religiosa que veio a se associar ao Iluminismo, a tolerância em questões de consciência se tornou um postulado fundamental de muitas pessoas engajadas em vários tipos de reforma, algumas ocupando posições políticas importantes nas cortes ibéricas.

Para os espanhóis e portugueses tais mudanças foram lentas, e na verdade alguns dos principais expoentes da transformação intelectual eram clérigos que procuravam reconciliar o racionalismo e o empirismo com a autoridade e a religião ortodoxa, assim criando um “iluminismo moderado”.

Cada um na sua lei, de Stuart B. Schwartz