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5 de maio de 2018

Nas cartas que La Vallete enviava dia após dia para a Sicília e a Itália continental pedindo socorro, ele nunca deixou de sublinhar a importância estratégica de Malta que estava agora sitiada pelo exército otomano. Sua perda deixaria a Europa cristã como “uma fortaleza sem revelim”. A metáfora não foi desperdiçada com seu público. Desde a queda de Constantinopla, a linguagem técnica da engenharia de fortaleza italiana estava constantemente na boca dos potentados e clérigos cristãos.

Eles concebiam todo o Mediterrâneo cristão como um vasto sistema de defesas concêntricas, no centro do qual estava Roma, morada de Deus, constantemente sob ataque da horda bárbara. Uma após a outra, as obras exteriores tinham se encerrado. Nos anos pós-1453, Veneza tinha sido a muralha externa na Europa; os otomanos a haviam neutralizado em apenas 50 anos. Depois, Rodes fora o escudo da cristandade. E caíra. A cada retratação, os turcos estavam um passo mais perto.

Agora Malta havia se tornado o revelim da Europa. Todos entendiam o significado disso — o papa em Roma, o rei católico no alto de seu palácio em Madri, dom Garcia de Toledo do outro lado das águas na Sicília —, pois, quando o revelim caía, o final de uma fortaleza estava próximo.

Impérios do Mar, de Roger Crowley