#542

6 de maio de 2018

Na linha de frente era impossível para os defensores mostrar a cabeça sobre o parapeito sem que fossem baleados. Às vezes somente pesadas armaduras garantiam sua sobrevivência. Em 28 de agosto, um soldado italiano, Lorenzo Puche, estava conversando com o grão-mestre quando foi atingido na cabeça por um tiro de arcabuz. Seu elmo recebeu toda a força da explosão. Atordoado, o homem caiu no chão, pegou o elmo amassado e pediu permissão para continuar o combate, o que, nessas circunstâncias, lhe foi recusado.

Para diminuir os riscos dos franco-atiradores, os arcabuzes eram amarrados juntos, hasteados acima do parapeito em postes e disparados remotamente por longos fios. Os dois lados ficavam a poucos metros de distância um do outro, agachados atrás de suas barricadas, na chuva. “Nós às vezes estávamos tão perto do inimigo”, lembrou Balbi, “que quase podíamos apertar-lhe as mãos”. Os comandantes de ambos os lados percebiam — e temiam — o sofrimento comum a toda a linha de frente.

Em Senglea, foi relatado que “alguns turcos falaram com alguns de nossos homens e desenvolveram a confiança de conversar um pouco sobre a situação”. Em breves momentos de reconhecimento mútuo, como bolas de futebol chutadas à terra de ninguém. Em 31 de agosto, um janízaro saiu de sua trincheira para dar a seus oponentes “algumas romãs e um pepino em um lenço, e nossos homens retribuíram com três pães e um queijo”.

Em um raro momento de humanidade comum em conflito desprovido de cavalheirismo. As conversas entre os dois grupos de homens deixavam claro que o moral no acampamento otomano estava caindo; os suprimentos de comida diminuíam; a situação era de impasse, com os defensores reparando as rachaduras à medida de que eram feitas. Os amigáveis janízaros davam a impressão de que agora a crença comum no acampamento otomano era de que “Deus não queria que Malta fosse tomada”.

Impérios do Mar, de Roger Crowley