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9 de maio de 2018

O século XVIII espanhol era visto, e continuou a sê-lo desde então, sobretudo no século XX, como um campo de batalha cultural onde as forças adversárias de duas visões distintas do passado disputavam os efeitos desse passado sobre o caráter e a trajetória de uma nação que havia perdido sua grandeza.

Para os saudosos da grandeza espanhola de outrora, o Iluminismo, com sua profunda dívida para com as influências estrangeiras, era tido como responsável pelo enfraquecimento daquelas alianças entre monarquia e fé e entre misticismo e militarismo que tinham feito da Espanha uma grande potência mundial no século XVI: o primeiro império nascido na Europa desde Roma com poderes e objetivos para conquistar todo o globo.

Para eles a revolução científica, o racionalismo e a secularização do Estado vinham acompanhados pela irreligião e pelo “espírito arrogante da nova filosofia”, que debilitavam e destruíam tudo que era exclusivamente espanhol. A Espanha não era a França, e quanto mais tentasse ser mais se enfraqueceria. Aqui residia a explicação dos males nacionais. Mas outros espanhóis enxergavam o assunto de outra maneira. Para eles o século XVIII era o tempo em que as fraquezas intrínsecas a um clima religioso e intelectual fechado e controlado, simbolizado pela Inquisição e por um sistema político repressivo, haviam convertido o país numa potência de segunda categoria.

O problema da Espanha, para esses críticos liberais, não era o fato de ter aceitado o racionalismo e o novo pensamento científico da época, e sim o fato de tê-los aceitado de maneira restrita e parcial devido à constante oposição e obscurantismo de uma Igreja ainda poderosa e de uma hierarquia eclesiástica que controlavam a vida intelectual e a ordem social da nação.

Cada um na sua lei, de Stuart B. Schwartz