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19 de maio de 2018

A realeza não se faz com um mero título. Em primeiro lugar, o rei é rico em terras e em homens, e sabe-se as dificuldades que teve de enfrentar, perante as igrejas, para pagar essa riqueza em homens — fiéis. Um milhar de fiscos, isto é, de domínios que lhe pertencem por herança recebida dos imperadores romanos e dos reis francos, também por conquista, constituí um patrimônio que faz que o rei não dependa de seus fiéis. Neles se contam duzentos palácios e vilas reais onde o rei está em casa, e onde também os fiéis estão na casa do rei. Quinhentos condes formam uma rede cerrada de relações administrativas e uma concentração das forças militares. Duzentas dioceses garantem uma fina malha administrativa e religiosa.

Nem por isso o rei é um déspota, um monarca com poder absoluto. Para falar a verdade, absolutismo é, no século VIII, algo praticamente desconhecido. Há os soberanos que sabem garantir seu poder, e aqueles que, como os merovíngios, terminam por perdê-lo. Herdeiro dos Césares que eram entronizados pelo exército a seu bel-prazer, o próprio imperador bizantino, apesar das dimensões histórica e teológica de sua autoridade, está à mercê de uma insurreição militar. Os reis bárbaros do Ocidente resolveram seus problemas sucessórios no seio de sua estirpe, mas só o fizeram com o consentimento dos grandes senhores de seu reino.

A tradição franca insere-se, pois, nas tradições políticas da época: o rei governa com seus grandes senhores. Isso significa dizer que a assembléia anual não tem a função apenas de referendar. Quando assim parece, é que o rei soube ganhar sua confiança e importar sua autoridade. Ao longo de todo o seu reinado, Carlos Magno nunca deixou, se não de negociar com os grandes senhores, o que já seria prova de fraqueza, pelo menos de levar em conta seus sentimentos, seus interesses, suas alianças, suas reações. O rei lhes impõe sua vontade porque ele só ousa querer aquilo a que eles, bem ou mal, podem aderir.

Carlos Magno, de Jean Favier