#548

20 de maio de 2018

O Palácio de Hofburg, um labirinto confuso de construções erguidas ao longo dos séculos e ligadas por corredores e escadas escuras, pequenos quintais e enormes passagens. Nessa confusão de pedras e alvenaria, que nada tinha da simetria e elegância de Versalhes, o imperador e sua comitiva de 2 mil nobres e 30 mil servos abarrotavam-se ao lado de numerosos gabinetes do governo, um museu e até mesmo um hospital. Exceto durante as visitas ocasionais ao Palácio Favorito, nos arredores da cidade, onde costumava caçar cervos, ou no Palácio de Luxemburgo, a 30 km de distância, onde lançava seus falcões as garças. Leopoldo governava seu império de Hofburg.

De fato, o caos do Hofburg era um símbolo do caos do império. A administração dos imperadores Habsburgo não era eficiente. Eles nunca conseguiram reunir todas as chancelarias, conselhos, tesourarias e outros diversos órgãos do Sacro Império Romano e dos domínios Habsburgo em uma única estrutura coesa de governo central. O próprio Leopoldo, formado para a teologia, era um autocrata indeciso. Tímido, apático, incerto acerca de qual caminho tomar, preferia ouvir conselhos e ponderar infinitamente sobre as recomendações contraditórias de seus conselheiros. Um diplomata francês o descreveu como “um relógio que sempre precisa ser acertado”. Na década de 1690, Leopoldo encontrava-se envolto por um casulo de muitas camadas de comitês, todos discreta e vigorosamente guerreando uns contra os outros em suas costas. A política era feita por acaso.

No fundo, Leopoldo (e depois dele seus dois filhos, os imperadores José I e Carlos VI) não acreditava que uma administração caótica era um defeito fundamental. Os três, durante mais de um século, compartilharam a visão de que a administração do governo era um assunto menor, infinitamente menos importante não apenas para suas almas, mas também para o futuro da Casa de Habsburgo, do que a crença em Deus e o apoio da Igreja Católica.

Se Deus estivesse satisfeito com eles, Ele asseguraria que a dinastia continuaria no poder e prosperaria. Essa era, portanto, a base de sua teoria política e de sua prática de governo: que o trono e o império lhes haviam sido entregues por Deus, e que “Nossa Casa, seus interesses e seu destino eram cuidados e seriam mantidos por um poder maior do que qualquer outro na Terra”.

Pedro o Grande, de Robert K. Massie