#550

26 de maio de 2018

O que os sobreviventes lembrariam — quando recordassem a batalha de Lepanto — era o barulho. “Tão grande era o ribomar dos canhões no início”, escreveu Caetani, “que não é possível imaginar ou descrever”. Atrás da detonação vulcânica das armas, vinham outros sons: o estalo agudo dos remos como tiros sucessivos de pistola, os choques e os estilhaços da colisão de navios, o chacoalhar dos arcabuzes, o zunido sinistro das flechas, lamentos de dor, gritos selvagens, o respingo dos corpos caindo no mar. A fumaça obscurecia tudo; navios iluminados por repentinos feixes de sol a atravessavam em uma guinada, vindos do nada, rasgando a lateral uns dos outros. Em todos os lugares havia confusão e ruído:

“Uma tempestade mortal de tiros de arcabuz e flechas, e parecia que o mar estava em chamas dos clarões e incêndios contínuos, acesos por trombetas de fogo, potes de fogo e outras armas. Três galés eram lançadas contra quatro, quatro contra seis e seis contra uma, inimiga cristã da mesma forma, todos lutando de modo mais cruel, para tirar a vida dos outros. E já muitos turcos e cristãos tinham embarcado nas galeras de seus oponentes, lutando corpo a corpo com armas curtas, poucos saindo vivos. E a morte vinha sem parar das espadas de suas mãos, cimitarras, clavas de ferro, punhais, machados espadas, flechas, arcabuzes e armas de fogo. E, ao lado dos mortos de várias maneiras, outros fugindo das armas, afogavam-se, jogando-se ao mar grosso e vermelho de sangue”.

Houve extraordinários momentos de coragem espontânea nesses navios cristãos atingidos. O jovem príncipe de Parma embarcou em uma galera sozinho, lutou contra toda a tripulação que restava no mastro principal e, este sim, sobreviveu para contar. No San Giovanni, o sargento espanhol Martin Munõz, deitado embaixo com febre, tinha ouvido os inimigos fazendo barulho no convés e saltou da cama determinado a morrer. Com a espada na mão, jogou-se contra os assaltantes, matou quatro e os rechaçou antes de cair em um banco de remo, cravejado de flechas e sem uma perna, gritando a seus companheiros: “Cada um de vocês, deem o máximo”.

No Doncella, Frederico Venusta teve a mão mutilada pela explosão da própria granada e exigiu que um escravo da galera a cortasse; quando o homem se recusou, ele mesmo realizou a operação. Depois, foi para os aposentos do cozinheiro, ordenou-lhe que amarrasse a carcaça de uma galinha sobre o coto sangrento e voltou para a batalha, clamando para a mão direita que vingasse a esquerda. Um homem atingido no olho por uma flecha puxou-o para fora do globo ocular, amarrou um pano em volta da cabeça e voltou a lutar. Os homens lutavam com seus agressores no convés. O Cristo sobre o Mundo, cercado e invadido, explodiu a si mesmo, levando as galeras circundantes com ele.

Impérios do Mar, de Roger Crowley