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27 de maio de 2018

Lepanto foi uma cena de devastação impressionante, como uma pintura bíblica do fim do mundo. A escala do massacre deixou até mesmo os vencedores exaustos, abalados e chocados com a obra de suas mãos. Em quatro horas, havia 40 mil homens mortos, cerca de 100 embarcações destruídas e 137 navios muçulmanos capturados pela Liga Santa. Dos mortos, 25 mil eram otomanos; apenas 3,5 mil foram pegos vivos. Outros 12 mil escravos cristãos foram libertados.

A colisão definitiva no mar Branco deu ao povo no início do mundo moderno um vislumbre do Armagedom por vir. Só em 1915, em Loos, na França, durante a Primeira Guerra Mundial, essa taxa de mortalidade seria superada. “O que aconteceu foi muito estranho e assumiu aspectos bastante diferentes”, escreveu Girolano Diedo, “como se os homens fossem extraídos do próprio corpo e transportados para o outro mundo.”

O dia chegou ao seu triste fim; a água sangrenta, grossa com os restos emaranhados da batalha, ficou vermelha no pôr do sol. Cascos em chamas cintilavam no escuro, fumacentos e em ruínas. O vento aumentou. Os navios cristãos mal podiam velejar, de acordo com Aurelio Scetti, “por causa dos incontáveis corpos flutuando no mar”. Eles partiram com os gritos lamentáveis da água ainda soando nos ouvidos. “Embora muitos cristãos não estivessem mortos, ninguém os ajudaria”. Enquanto os vencedores procuravam ancoragem segura na costa grega, uma tempestade agitou a superfície do mar, espalhando os detritos, como se o oceano estivesse limpando o campo de batalha para longe com uma grande mão.

O cronista otomano Peçevi escreveu o obituário da batalha: “Eu vi o lugar miserável onde a batalha ocorreu […] Nunca houve uma guerra tão desastrosa em terra islâmica, nem em todos os mares do mundo, desde que Noé criou os navios. Cento e oitenta embarcações caíram em mãos inimigas, com canhões, espingardas e outros recursos e materiais de guerra, escravos de galera e guerreiros islâmicos. Todas as outras perdas foram proporcionais. Havia 120 homens mesmo nos menores navios. Com isso, o cômputo total de homens perdidos foi de 20 mil”. E Peçevi estava subestimando. Foi Cervantes, atingido no peito por dois tiros de arcabuz e permanentemente mutilado da mão esquerda, que resumiu o estado de espírito cristão: “o maior evento testemunhado na era passada, presente e futura”.

Impérios do Mar, de Roger Crowley