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3 de junho de 2018

Lepanto foi para o cristianismo o que foi Trafalgar para a coalizão anti-napoleônica — um evento sinalizador que tomou conta de toda a Europa. Eles celebraram tanto quanto os protestantes luteranos de Londres e da Suécia. Dom João da Austria tornou-se instantaneamente o herói da época, objeto de inúmeros poemas, peças de teatro e periódicos. O papado declarou que o dia 7 de outubro, daquele momento em diante, seria dedicado a Nossa Senhora do Rosário.

Jaime VI da Escócia inspirou-se para compor 1100 versos do burlesco latino. As guerras turcas se tornaram assunto para os dramaturgos ingleses: Otelo, por exemplo, volta de uma batalha em Chipre travada contra “o inimigo general otomano”. Na Itália, os grandes pintores do período criaram telas monumentais. Ticiano retratou Felipe II erguendo o filho recém-nascido para a Vitória alada, enquanto um prisioneiro está sentado no chão perto dele, com o turbante caído, e galés turcas explodem a distância.

Tintoretto representou Sebastiano Venier, rude e barbudo, com armadura negra, diante de uma cena semelhante. Vasari, Vicentino e Veronese produziram enormes cenas de batalha confusas, cheias de fumaça, fogo e homens afogando-se, tudo iluminado por raios de luz do céu cristão. E em todos os lugares, desde a Espanha até o Adriático, missas, procissões de vitoriosos e de turcos cativos, multidões em lágrimas e a consagração dos troféus de batalha otomanos.

O grande estandarte verde de Ali Paxá pendia do palácio em Madri, e outro semelhante, da igreja de Pisa. Nas igrejas de azulejo vermelho da costa da Dalmácia, exibiam-se figuras e lanternas de popa dos otomanos e acendiam-se velas em memória daqueles que lutaram.

Impérios do Mar, de Roger Crowley