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6 de junho de 2018

Na esteira de toda a euforia da grande vitória havia pequenos atos de cavalheirismo. Dizem que dom João da Áustria ficou desconcertado com a morte de Ali Paxá; ele reconheceu o kapudan paxá um adversário digno. É irônico o fato de que esses dois dos mais humanos comandantes, vinculados por um código de honra compartilhado, tenham empreendido uma matança tão grande.

Em maio de 1573, dom João recebeu uma carta enviada pela sobrinha do sultão Selim II, irmã de dois filhos de Ali pedindo a libertação deles. Um tinha morrido em cativeiro; o outro dom João devolveu, com os presentes que ela havia enviado e uma mensagem comovente: “Você pode ter certeza”, escreveu ele, “que, se em qualquer outra batalha que ele ou qualquer outro daqueles que pertencem a seu círculo se tornarem meus prisioneiros, com a mesma alegria de agora eu lhes darei a liberdade e farei tudo o que puder ser agradável a você”.

Isso provocou uma resposta do sultão, ainda, como sempre, autoproclamando-se “conquistador das províncias, exterminador de exércitos, terrível sobre as terras e os mares”, para dom João: “Capitão de virtude singular […] sua virtude, muitíssimo generoso João, foi destinada a ser a única causa, depois de muito tempo, do maior dano que a Casa de Osman já recebeu de cristãos. Em vez de ofensa, isso me dá a oportunidade de enviar-lhe presentes”.

Impérios do Mar, de Roger Crowley