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12 de junho de 2018

Durante o inverno de 1534-35, Carlos V lançou-se no planejamento de uma expedição marítima para Túnis. Requisitou homens e navios de todo o império. Os transportes saíram de Antuérpia com protestantes acorrentados para remar as galeras. As tropas marchavam da Alemanha, da Espanha e da Itália até os pontos de coleta na costa. Doria reuniu sua frota em Barcelona; Bazan partiu de Málaga.

Os cavaleiros de São João vinham de Malta em sua grande nau, Sant’Ana; os portugueses enviaram 23 caravelas e outra nau ainda maior, Botafogo — o mais poderoso do mundo; um destacamento foi financiado pelo papa. Gênova e Barcelona era um burburinho de homens e navios, e ainda a carga de barris e biscoitos, água e pólvora, cavalos, canhões e arcabuzes. Carlos mostrou-se um bom planejador militar. Concebida em uma escala enorme, a expedição foi extraordinariamente bem coordenada pelos padrões dos Habsburgos; pela primeira vez não se navegaria no final do ano.

No início de 1535, a armada se reuniu na costa da Sicília: 74 galés, 300 veleiros, 30 mil homens. A revista da frota era uma exibição planejada da iconografia religiosa e do esplendor imperial. Carlos tinha encomendado um navio digno de sua posição como defensor da cristandade: um quadrireme, uma imensa galera com quatro homens em cada remo, com popa acastelada e dourada e dossel de veludo vermelho e dourado, ostentando bandeiras heráldicas nos mastros — uma mostrava o Cristo crucificado com o lema pessoal de Carlos, “Avante”; a outra, uma estrela radiante rodeada de flechas e a inscrição “Mostra-me Teus caminhos, ó Senhor”.

Em menos de um dia a frota chegou à costa do Norte da África. Na manhã de 15 de junho, ancorou no local da antiga Cartago e começou a se preparar para sitiar La Goletta, “a garganta”, fortaleza que controlava o canal no lago interno, em cujas margens ficava Túnis, “a Verde”. Demorou um mês para demover esse obstáculo, assediado constantemente por incursões de Barbarossa à cidade. Em 14 de julho, depois de um furioso bombardeio proveniente da grande nau, e com as galés avançando em ondas sucessivas para abater as defesas com suas bestas, os muros foram derrubados e a fortaleza, invadida, com a perda de muitas vidas, e um consternado Barbarossa batendo em retirada. Entre as ruínas, os espanhóis ficaram surpresos ao encontrar bolas de canhão — estampadas com a flor de lis da França.

Impérios do Mar, de Roger Crowley