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14 de junho de 2018

Para o imperador Carlos V, as balas de canhão francesas em La Goletta foram um presságio perturbador dos eventos prestes a acontecer. Em 1536, ele embarcou em uma guerra exaustiva de dois anos contra Francisco I da França. Um verdade amarga de uma Europa fragmentada era a de que o rei católico gastaria mais tempo, dinheiro e energia lutando contra os franceses e os protestantes do que jamais tinha dedicado à guerra contra Solimão o Magnífico.

Dar-se conta do poder dos Habsburgos amedrontou em vez de unir a cristandade, e, nesse clima, Solimão era habilmente capaz de afetar o equilíbrio de poder no mar Mediterrâneo. Os franceses vinham flertando com uma aliança otomana havia anos, tanto diretamente, em missões diplomáticas furtivas, como por meio dos Barbarossas. Já em 1520, eles enviaram um embaixador a Túnis para persuadir os corsários “a multiplicar as dificuldades do imperador em seu reino de Nápoles”. Eles forneceram tecnologia militar a Barbarossa — armas, pólvora e canhões — e informações sobre o imperador.

“Não posso negar”, admitiu Francisco ao embaixador veneziano, “que gostaria de ver o Turco todo-poderoso e pronto para a guerra, não por ele, pois ele é um infiel e todos nós somos cristãos, mas para enfraquecer o poder do imperador, para obriga-lo a ter grandes gastos e para tranquilizar todos os outros governos que se opõem a um inimigo tão formidável”.

No início de 1536, Francisco e Solimão assinaram um acordo que concedia direitos comerciais mútuos; por trás deste estava o entendimento de que eles cairiam sobre a Itália em um movimento coordenado e destruiriam Carlos. O Mediterrâneo mudou o palco central na guerra imperial do sultão. Francisco estava evidentemente bem informado sobre seu objetivo final. “O Turco vai fazer alguma expedição naval”, disse ele aos venezianos, “indo talvez até Roma, pois o sultão Solimão sempre diz: ‘Para Roma! Para Roma!’”.

Impérios do Mar, de Roger Crowley