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16 de junho de 2018

A Espanha era um império decido a dominar o mundo, e em meados do século XVI, parecia estar perto desse objetivo. Em 1526, Gonzalo Fernández de Oviedo dirigiu-se ao rei da Espanha chamando-o de “monarca único e universal de todo o mundo”. Falava de maneira figurada, mas também como algo que poderia acontecer.

A descoberta e a colonização das Américas Central e do Sul haviam feito da Espanha um país rico e de seu rei o governador supremo de um império de tamanho comparável ao de Roma, um império no qual, na expressão de Ariosto — mais tarde adotada por propagandistas ingleses sem qualquer cerimônia — onde “o sol nunca se põe”. E como os espanhóis, de um modo geral, e o rei Felipe II em particular, consideravam-se o braço da Igreja Católica, eles tinham uma missão sagrada, além da ambição secular, de estender seu império de forma a incluir todas as nações do mundo.

Para os protestantes, aquele império em expansão era o inimigo da verdadeira religião e o opressor de todos os povos livres. Soberba, fausto, e terrível crueldade eram características do império espanhol: “Quão resplandecente com um brilho enganoso; À vista, o encantamento; oculta, a morte; Assim foram as glórias passadas da Espanha.” Esses versos são do poeta vitoriano William Henry Smith, inspirado na visão elaborada pela primeira vez pelos propagandistas protestantes do século XVI. Estes desenharam a imagem do poderio espanhol: as câmaras de tortura da Inquisição, as imensas galés sendo remadas por miseráveis escravos, e minas de prata e ouro na América do Sul onde índios trabalhavam sob chicotadas até caírem mortos. Tudo isso era exibido com riqueza de detalhes. Uma devastadora acusação pública a seus compatriotas no Novo Mundo foi feita pelo franciscano espanhol Bartolomé de las Casas em Paraíso destruído: A sangrenta história da conquista da América espanhola. O livro, lido avidamente, difundiu uma imagem horrenda dos colonizadores espanhóis como conquistadores gananciosos e cruéis.

Para os espanhóis, acima de tudo, a partir da Contra-Reforma, a Espanha passou a ser, um país absolutamente cristão, que devia sua própria existência à expulsão dos infiéis. O historiador do século XIX Menédez y Pelayo chamou seu país de “Espanha, a evangelizadora de metade do mundo; Espanha, o terror dos hereges; Espanha, a espada do papa. É esta nossa grandeza e nossa glória; não temos outra”.

Heróis, de Lucy Hughes-Hallett