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17 de junho de 2018

Vermeer viveu perto do fim do chamado século da prata, que começou por volta de 1570. Nunca antes esse metal precioso circulou em tamanha quantidade na bolsa dos viajantes, nas costas dos animais de carga, em barcos pelos rios e, principalmente, no porão dos juncos chineses e das carracas europeias que, incansáveis, singravam as águas do globo. De repente, havia um oferta nunca vista de prata e, de repente, tudo era comprado e vendido de acordo com o seu padrão.

Dizer que uma coisa era “vendida pelo seu peso em prata”, preço que um escritor de meados do século XVII atribuiu ao fumo de Virgínia na virada do século, era uma expressão planejada para espantar as pessoas comuns. O custo de algo em prata também podia ser considerado o cúmulo da loucura, como observa um personagem numa peça de Thomas Dekker, de 1600, ao satirizar um fumante inveterado como “um asno que derrete todo esse dinheiro em fumaça”.

O poder que a prata exercia no mundo era quase um mistério para quem realmente pensava no assunto. Ela podia ser empregada com fins decorativos, mas o seu uso real era limitado. A maioria queria tê-la, mas só para adquirir outras coisas. O seu valor era puramente arbitrário. Na época, para os moralistas da Europa à China. a prata criava a ilusão de riqueza, mas não era riqueza em si, Nas palavras de Paolo Xu, o católico convertido da corte Ming, ela era “meramente medida da riqueza”. Era desnecessária para a produção de valor real. O governante preocupado com o bem-estar do povo deveria cuidar para que houvesse bastante comida, roupa e terra, não bastante prata.

O problema é que essa máxima não se aplicava mais a uma economia inteiramente comercializada. Se tudo podia ser comprado e vendido em troca de prata, só se precisava de prata. Por outro lado, numa economia parcialmente comercializada, que era a economia em que vivia a maioria das pessoas do século XVII, a prata era inútil quando a oferta se extinguia ou a fome deixava os preços além do alcance das pessoas comuns, o que ainda acontecia com regularidade. Mas assim que a prata surgiu na economia, a maioria não tinha opção senão a usar, fosse para comprar ou pagar tributos. Também não tinha opção senão a obter vendendo objetos ou a força de trabalho. A prata tornou-se inevitável.

O Chapéu de Vermeer, de Timothy Brook