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21 de julho de 2018

A expansão marítima da Europa, que teria efeitos profundos de longo prazo em todos os lugares, originou-se de uma combinação de necessidade estratégica, fervor religioso, busca de riqueza e sentimento de aventura. Com a expulsão dos mouros na Espanha em 1492 e a ascensão de uma monarquia espanhola destinada a dominar a Europa aconteceram no mesmo ano em que enviava Colombo para o Novo Mundo.

A defesa da cristandade também envolveu o início da expansão cristã ao redor dos flancos muçulmanos, à procura de possíveis aliados. Além de questão estratégica, que foi, é claro, motivada pela religião e pela necessidade de especiarias, e transpor ou atravessar as novas regiões dominadas pelos otomanos nos bálcãs e no Oriente Médio que ficava cada vez mais difícil.

Mesmo antes do começo do século XVI, a devoção religiosa aliou-se a um impulso para a defesa, a riqueza e a conquista. Nenhum desses objetivos poderia ser alcançado por via terrestre, pelas estradas transaarianas que os primeiros exploradores usaram para ir à “Cathay” (China) à medida que agora, os khanatos mongóis enfraqueciam. Com a desintegração da Pax Tartarica, a viagem e o comércio por terra mais uma vez ficaram perigosos.

Felizmente para os portugueses e espanhóis, inovações tecnológicas lhes propiciaram navios novos e bem mais adequados para a navegação no alto-mar do que os antigos galeões: caravelas longas, e carracas maiores. Eram muito mais velozes, resistentes, mais fáceis de manobrar e melhor armadas do que os navios árabes. Poderiam até transportar artilharia. Esses navegadores tinham quadrantes, astrolábios e bússolas magnéticas. Os reinos de Castela e Portugal foram os primeiros a enviar homens em embarcações minúsculas para longas e perigosas viagens, nas quais a doença, a fome e o escorbuto se propagavam. No entanto, nenhum deles possuía o capital nem o conhecimento organizacional que as novas viagens exigiam. Por isso, foi preciso recorrer a Gênova, aos florentinos e às grandes casas comerciais alemãs, como a dos Fugger.

O resultado foi uma série de viagens e conquistas no norte e no oeste da África. Em 1471, os portugueses ocuparam Tânger. Nove anos depois, construíram fortes na Costa do Ouro e passaram a mandar cerca 700 quilos de ouro e 10 mil escravos todos os anos para Lisboa. O primeiro indício de uma abordagem litorânea de europeus ocidentais no leste da Ásia ocorreu quando Bartolomeu Dias circundou a África e transpôs um cabo que seu rei chamou de Cabo da Boa Esperança, chegando ao oceano Índico. Poucos anos mais tarde, em 1492, Cristóvão Colombo fez a viagem para “as Índias”, o fabuloso Oriente, por uma rota a oeste que o conduziu ao novo mundo das Américas. Ao partir, levou uma carta dos soberanos espanhóis, Fernando e Isabel, para o “Grande Khan de Cathay”.

Com a finalidade de impedir uma competição excessiva (e favorecer o monopólio) entre Espanha e Portugal, o papa Alexandre VI usou sua autoridade para estabelecer regras de exploração na bula papal de 1493, cujos detalhes foram acordados pelos dois reinos um ano depois no Tratado de Tordesilhas.

O Dragão e os Demônios Estrangeiros, de Harry G. Gelber