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22 de julho de 2018

Os diretores podiam se dar ao luxo de receber reclamações das colônias com equanimidade. Os tempos eram muito bons para a Companhia das Índias Ocidentais holandesa. O principal objetivo do empreendimento naqueles tempos era lucrar com o combate aos espanhóis e, em 1628, a companhia “descobriu a mina”.

Durante quase um século, as riquezas que a Espanha extraía das colônias sob seu domínio na América do Sul vinha sendo enviadas à metrópole, regularmente, duas vezes ao ano, por uma frota conhecida como Esquadra do Tesouro, que chegou a somar noventa navios. Em maio de 1628, Piet Heyn, um marujo de baixa estatura e cara de lobo, que no passado fora pego pelos espanhóis e obrigado a trabalhar durante quatro anos como remador em uma galeota espanhola, surpreendeu a frota pesada e lenta e, com seus 31 navios corsários, atacou-a em águas próximas a Cuba.

O espólio foi inacreditável: 12 milhões de florins em ouro e prata. O montante garantiu o retorno imediato aos investidores que haviam arriscado seu capital na companhia, e aqueceu a economia holandesa durante anos. Para o povo das Províncias Unidas dos Países Baixos, que havia décadas lutava para se ver independente do aparentemente implacável Império Espanhol, o feito constituiu um sinal sonoro como um tiro de pistola, de uma mudança histórica.

O título de um panfleto contemporâneo de grande sucesso deixa óbvia a questão: “Avaliação da grande monarquia espanhola, em que é revelada que ela não é capaz de realizar tanto quanto ela própria supõe. Escrito por ocasião da conquista da Esquadra da Prata, pelo general P. P. Heyn.” Para além do mar que se estendia à frente dos colonizadores, portanto, o mundo estava mudando. A façanha de Heyn parecia demonstrar a deterioração do Império Espanhol, ou que ao menos, poderia ser desafiado.

A Ilha no Centro do Mundo, de Russel Shorto