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31 de julho de 2018

Ao rejeitar tão decididamente a autoridade papal, Elizabeth e seus ministros, implicitamente, desafiavam a Espanha. O conflito que iria dominar tantos aspectos de seu reinado e que resultaria, em seu episódio mais famoso (se não o mais conclusivo), na vitória sobre a Invencível Armada, tinha raízes na aliança firmada desde 1493 entre a coroa espanhola e Roma.

Como parte de uma série de favores diplomáticos vantajosos para sua própria ambição dinástica sobre a península Itálica, o papa Alexandre VI, da família Bórgia, promulgara naquele ano a bula Inter Coetera, dividindo os então recentemente descobertos territórios do Novo Mundo entre a Espanha e Portugal, ao longo de uma linha traçada a partir do arquipélago de Cabo Verde. Territórios a leste da linha seriam feudos papais de Portugal, territórios a oeste da Espanha.

Em 1494, o papa conferiu o título de Reis Católicos a Isabel de Castela e Fernando de Aragão —, em reconhecimento pela reconquista de Granada, último Estado muçulmano na Península Ibérica. O título refletia uma aliança entre os poderes temporal e sagrado, importantíssimo para a hegemonia da Espanha no século seguinte: “A assunção desse dever exemplar de preservar a Fé Verdadeira foi entendida … como um ‘quid pro quo’ pela quase miraculosa aquisição de um vasto rentável império. Desafiar um seria negar o outro, como os futuros inimigos da Espanha compreenderam bem”.

Mas considerar a política de Elizabeth em relação à Espanha uma resposta defensiva ao imperialismo agressivo de Felipe II é interpretar mal o elemento inglês (se não o elemento Tudor) do conflito entre as duas nações. Felipe partilhava com Elizabeth a percepção de seu papel como instrumento da vontade de Deus, mas sendo ele, como sem dúvida era, um evangelista tirânico da Contra-reforma, a política inglesa desde o início foi tão agressiva quanto reativa. O “Dispositivo” [Ato de Uniformidade] de William Cecil não só representava uma evidente declaração aos súditos de Elizabeth de como iria funcionar a partir de então a relação entre Estado e Igreja. Era também a declaração de um beligerante isolacionismo motivado pela crença de que o ataque era a melhor forma de defesa.

Elizabeth, de Lisa Hilton