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12 de agosto de 2018

Os leitores holandeses ouviram falar da porcelana chinesa em 1596 por meio de Jan Huygen van Linschoten, holandês que foi à Índia a serviço dos portugueses. “Itinerário”, seu livro de sucesso, inspirou a geração seguinte de comerciantes mundiais holandeses. Van Linschoten viu a porcelana chinesa nos mercados de Goa. Embora nunca tenha ido à China, conseguiu recolher informações razoavelmente sólidas sobre a mercadoria.

“Ninguém acreditará caso se fale das porcelanas lá feitas” — ele fala da China com base no que descobriu em Goa — “nem daquelas que são exportadas todo ano para a Índia, Portugal e Nova Espanha e outros lugares!” Van Linschoten soube que a porcelana era produzida “no interior” — em Jingdezhen — e que somente o material de segunda linha era exportado. As melhores peças, “tão maravilhosas que nenhum vidro cristalino se compara a elas”, eram mantidas no país, para a corte.

Os comerciantes indianos levavam porcelana chinesa para o subcontinete desde o século XV, pelo menos. Eles a adquiriam de mercadores chineses no sudeste da Ásia, que a traziam de postos ao longo do litoral sudeste da China, para onde, por sua vez, os negociantes de cerâmica a levavam desde o interior. De repente, o desenvolvimento da rota comercial marítima em torno da África abriu um mercado na Europa. Os portugueses foram os primeiros europeus a adquirir porcelana chinesa em Goa, e não demorou para ampliarem suas rotas comerciais até o sul da China, onde podiam negociar diretamente com os atacadistas chineses.

Era nessa rota que os holandeses queriam entrar, e logo conseguiram. Mas a primeira grande remessa de porcelana chinesa para Amsterdã não foi um empreendimento holandês. Foi resultante da rivalidade luso-holandesa em alto-mar, ao largo de Santa Helena, onde uma frota de navios holandeses capturou ali o português San Iago, em 1602. O próximo grande carregamento de porcelana a chegar aos Países Baixos veio no ano seguinte, da mesma maneira. O Santa Catarina foi capturado ao largo de Johore, no estreito de Malaca, na rota marítima que liga o oceano Índico ao mar da China Meridional. Foi a captura mais famosa do novo século. O Santa Catarina levava 100 mil peças de porcelana, num peso total de mais de 50 toneladas.

O Chapéu de Vermeer, de Timothy Brook