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2 de setembro de 2018

No final do século XVII, Amsterdã era o maior porto da Europa e a cidade mais rica do mundo. Construída onde dois rios, o Amstel e o Ij, fluem para o golfo Zuiderzee, a cidade foi erguida das águas. Estacas foram fincadas no terreno pantanoso para criar uma fundação e a água passou a fluir pela cidade em canais com forma de anéis concêntricos — havia cinco deles na época. Cada canal era dividido em duas ou três passagens de água menores, de modo que toda a cidade ficava praticamente flutuando, um arquipélago de setenta ilhas ligadas por 500 pontes arqueando-se sobre canais para permitir a passagem de barcos e barcaças.

As muralhas foram construídas logo atrás do canal mais externo, de modo que ele constituísse um fosso natural. Em meio a essas muralhas estavam torres de vigia fortificadas às quais — tipicamente — os holandeses utilitários tinham dado um segundo uso. No topo das torres, colocaram moinhos de vento cujas rotações ofereciam energia a bombas trabalhando constantemente para sugar a água de pequenas áreas de solo seco. De pé sobre as fortificações, um observador conseguia ver uma enorme extensão de terra plana e úmida pontuada em todas as direções por outros moinhos de ventos, grandes ou pequenos, girando sem parar para bombear a água do mar.

As construções proclamavam a riqueza da cidade. Vista do porto, Amsterdã era um panorama de torres de igreja feitos de tijolos vermelhos, simétricas e metódicas, desenhadas no estilo arredondado típico dos holandeses. Os fundadores da cidade sentiam-se enormemente orgulhosos de sua prefeitura, acreditando que a construção, que se apoiava em 13.659 estacas, era a oitava maravilha do mundo. Hoje em dia, a construção é um palácio real. Por toda a cidade, havia cervejarias, refinarias de açúcar, tabaco, depósitos, armazéns de café e especiarias, panificadoras, abatedouros e siderúrgicas, cada um contribuindo com sua forma ou seu odor pungente para forma uma imagem composta de enorme variedade e riqueza. No entanto, acima de tudo era nas esplêndidas mansões construídas pelos comerciantes prósperos ao longo dos canais que a riqueza de Amsterdã era ostentada.

Havia água e navios por todos os cantos. Cada vez que virava uma esquina, o visitante avistava mastros e velas. O mar era uma floresta de mastros. Pelos canais, pedestres pisavam em cordas, anéis de ferro para prender barcos, pedaços de madeira, barris, âncoras e até mesmo canhões. Toda a cidade era quase um estaleiro. E o próprio porto estava repleto de navios de todos os tamanhos. E, na extremidade ocidental do porto, em uma área chamada Ostenburg, estavam as docas da Companhia Holandesa das Índias Orientais, com os enormes desembarcadouros e rampas de lançamento navais onde os navios da empresa eram construídos.

Pedro o Grande, de Robert K. Massie